Argentina quer levar ao banco dos réus ‘colaboradores econômicos’ da ditadura

Deputado da base governista apresentou projeto de lei para criar comissão que tentaria identifica 'cumplicidades econômicas'

Ariel Palacios, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2014 | 23h27

BUENOS AIRES - O presidente da Câmara de Deputados, o kirchnerista Julián Dominguez, apresentou um projeto de lei para a criação de uma Comissão Parlamentar de Identificação das Cumplicidades Econômicas durante a ditadura militar (1976-83). O objetivo é preparar um relatório detalhado sobre a cumplicidade de empresários com o regime militar. Diversos depoimentos, acumulados desde a volta da democracia, indicam que empresários deram apoio econômico à ditadura, além de colaboração técnica, política e logística. A ideia dos aliados do governo da presidente Cristina Kirchner é levar ao banco dos réus nos próximos anos os eventuais "colaboradores econômicos" da ditadura.

Dominguez pretende que os empresários envolvidos admitam voluntariamente sua participação na ditadura, apresentem um pedido de perdão e ofereçam mecanismos de reparação pelos eventuais prejuízos causados.

Entre os que teriam colaborado ativamente com o regime está Carlos Blaquier, presidente do Grupo Ledesma, de usinas de açúcar, suspeito de ter participado da operação de sequestro de operários de seu engenho na província de Jujuy, no norte da Argentina, em julho de 1976. Na ocasião, 400 pessoas foram levadas em caminhões do Grupo Ledesma pelos militares e torturadas. Destas, 55 permanecem desaparecidas.

Há casos de desaparecimentos de líderes operários nas fábricas da Mercedes-Benz e Ford na época da ditadura. Organizações de defesa dos direitos humanos querem saber se os diretores dessas empresas na época colaboraram no sequestro dos sindicalistas.

O regime militar também confiscou companhias privadas e as repassou para outros empresários. Esse é ocaso da "Sasetrú", a maior empresa de alimentos da Argentina nos anos 70, cujo então dono, recusou-se a entregar a lista dos representantes sindicais existentes dentro da companhia. O herdeiro, Jorge Martín Salimei, exige a abertura de uma investigação sobre o caso no qual esteve envolvido o ex-ministro da economia, José Alfredo Martinez de Hoz, morto em 2013.

Papel Prensa.

O principal alvo do governo seria o Grupo Clarín, considerado inimigo pela presidente Cristina. Há quatro anos ela tenta responsabilizar o Clarín e o jornal La Nación por terem realizado, em 1977, a compra de forma irregular da única fábrica de papel de jornal do país, a "Papel Prensa". Esse negócio, segundo Cristina, teria sido ocorrido por meio de torturas realizadas por integrantes da ditadura militar contra Lídia Papaleo de Graiver, viúva do antigo dono da empresa, o banqueiro Daniel Graiver.

No entanto, o irmão de Daniel, Isidoro Graiver, que também foi torturado junto com sua cunhada, afirma que a venda da empresa havia ocorrido em 1976, meses antes das torturas. Isidoro sustenta que as torturas não estavam vinculadas com o controle da Papel Prensa, que já havia sido vendida. Sem provas suficientes por parte do governo - e com depoimentos que contradizem as acusações da presidente - o caso está atualmente parado na Justiça.

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