Argentina renova busca por bebês sequestrados

Atletas olímpicos vão à TV incentivar quem tem dúvida sobre seus pais a procurar as Avós da Praça de Maio, que aderiram ao Twitter e ao Facebook

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h02

Vários atletas argentinos que participam dos Jogos Olímpicos de Londres gravaram uma série de anúncios publicitários para a TV na qual pedem a colaboração da população para localizar os bebês sequestrados pelos militares durante a ditadura argentina. A campanha, que está sendo veiculada desde a semana passada nos principais canais da Argentina, será transmitida até o fim da Olimpíada.

"Queria te contar que houve uma ditadura na Argentina que roubou centenas de bebês. Hoje, já são adultos. Mas, ao redor de 400 pessoas ainda não conhecem suas verdadeiras identidades", diz o anúncio. "Se você conhece alguém que possa ser filho de desaparecidos ou se você tem dúvidas sobre sua identidade, procure as Avós da Praça de Maio. Estamos esperando você."

Os atletas que participaram são o velejador Julio Alsogaray, o lançador de dardo Braian Toledo, o jogador de vôlei Facundo Conte, o técnico da seleção de hóquei Carlos Retegui e a judoca Paula Pareto. O objetivo é intensificar e ampliar as frentes de procura das crianças roubadas durante a ditadura.

A cada ano, a procura torna-se mais difícil, já que militares que testemunharam esses crimes e poderiam dar novos detalhes para as investigações estão com mais de 80 anos.

As Avós da Praça de Maio encontraram, em agosto de 2011, a neta número 105: Laura Reinhold Siver, que se reuniu com sua família biológica. No entanto, elas afirmam que existem outras quatro centenas de bebês - atualmente adultos com cerca de 36 anos de idade - que ainda não foram localizados. O grupo conta com um banco de dados genético para identificar os filhos dos desaparecidos da ditadura.

"Além de procurar os netos desaparecidos, estamos começando a buscar os bisnetos, já que há uma nova geração que agora são crianças ou pré-adolescentes, filhos dos bebês sequestrados pelos militares", explicaram ao Estado porta-vozes das Avós da Praça de Maio. "Esses bisnetos também estão sendo privados de sua identidade real."

Exposição. A organização começou a usar o Facebook e o Twitter para divulgar a campanha de procura dos netos desaparecidos. No primeiro semestre deste ano, as Avós da Praça de Maio organizaram um concurso. Mais de 2 mil posts foram apresentados, dos quais 15 foram premiados e ilustrados por desenhistas e pintores famosos na Argentina. As peças, expostas no Centro Cultural Konex até a semana passada, serão levadas a várias cidades argentinas nos próximos meses.

Segundo a líder das Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, o Twitter é uma forma a mais de chamar a atenção daqueles que foram roubados, para que eles recuperem sua identidade e entrem em contato com seus parentes, que nunca deixaram de procurá-los.

Estela admitiu que as novas tecnologias são estranhas para as Avós. "A modernidade é muito complexa para nós, que somos antigas e não entendemos muito dessas coisas. Mas, é uma ferramenta a mais para seguir na luta para recuperar os netos. Espero que meu neto Guido, esteja onde estiver, acorde por meio dessa exposição."

Além dessas ferramentas, o site das Avós exibe as fotos dos netos desaparecidos. "Muitas pessoas procuram o site para ver as fotos e verificar se são parecidos com eles próprios quando eram crianças. Essa é uma porta de entrada para uma ligação telefônica e combinar uma reunião na área de apresentação espontânea das Avós", afirmam os porta-vozes da organização.

Programas de TV. Os bebês sequestrados também foram o foco da novela argentina Montecristo, de 2006, na Telefé, canal de maior audiência no país. O programa, que teve o efeito de provocar uma intensificação das investigações sobre a ditadura, estimulou diversos jovens que suspeitavam que poderiam ser filhos de desaparecidos a procurar as Avós. Em 2007 foi a vez de Televisão pela identidade, programa da TV pública que recriava a história dos filhos dos desaparecidos.

Nos últimos anos, os bebês roubados também inspiraram os compositores do rock argentino. Esse é o caso da banda Bersuit Vergarabat, que compôs Victoria Clara, sobre a história da procura de Victoria Petrakos por parte de sua irmã Clara, nascida em 1977. Outro caso de um neto recuperado em 2004, o de Juan Cabandié, inspirou a canção Yo soy Juan, de León Gieco. Cabandié, atualmente, é deputado na Assembleia Legislativa do Distrito Federal argentino.

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