Argentina sofre sexta greve em 19 meses

O governo do presidente Fernando de la Rúa sofreu hoje a sexta greve geral desde o início de seu mandato há um ano e meio. A greve teve ampla adesão, e foi convocada pelas três centrais sindicais argentinas: a Confederação Geral do Trabalho (CGT) oficial, a CGT dissidente, e a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA). Os sindicalistas paralisaram o país em protesto contra o ajuste fiscal do governo federal, que implicará na redução em 13% dos salários dos funcionários públicos e das aposentadorias acima de US$ 300. Esta foi a primeira vez que as duas CGTs se uniram em uma greve geral desde seu racha em março do ano passado. Além disso, foi a primeira vez que contaram com o apoio da CTA, central que se separou do sindicalismo convencional a meados dos anos 90. Até o momento, cada central havia feito greves separadamente. Foi necessário "El Ajustazo" (O ajustaço) para uni-las outra vez. Cálculos de diversas fontes sindicais e independentes sustentaram que a paralisação atingiu entre 80% e 90% dos trabalhadores nas grandes cidades. Em Buenos Aires, não houve marchas de protesto, como nas greves anteriores. No entanto, foram registrados incidentes na região metropolitana. De manhã, diversos ônibus e trens que pretenderam circular foram apedrejados e incendiados. Militantes dos sindicatos de ferroviários bloquearam os trilhos com pneus em chamas. Um taxi foi atingido por um coquetel molotov, mas o motoristas conseguiu escapar somente com o cabelo chamuscado. Ainda pela manhã, na estação de trens de Constitución, o ajudante de cozinha Luis Gregorio esperava o seu transporte. "Estou aqui desde as duas da madrugada. Dormi no banco da estação. Queria voltar para casa, mas os trens já não circulavam mais. Acho que vou ter que ficar na cidade mesmo, voltar ao restaurante, e só voltar amanhã para casa", disse à Agência Estado. Osvaldo Quirnos estava do outro lado da cidade, na estação de trens de Retiro. "Consegui chegar desde Martínez (norte da Grande Buenos Aires) em um trem que passou pelos piquetes" comentou. Dono de uma barbearia na capital, veio trabalhar mesmo sem saber se teria clientela. "Alguém sempre aparece, e com a falta de dinheiro que existe hoje, qualquer "peso" é "bienvenido" (bem-vindo)". O ex-presidente Raúl Alfonsín afirmou que o governo De la Rúa "poderia ter evitado" a greve, se "houvesse dialogado previamente" sobre o pacote de ajuste, em vez de implementá-lo diretamente. De la Rúa está batendo recordes de greves em toda a história argentina. Segundo o Centro de Estudos para a Nova Maioria, enquanto que nos primeiros 19 meses de governo o ex-presidente Alfonsín (1983-89) teve duas greves gerais, e o ex-presidente Carlos Menem (1989-99) nenhuma, De la Rúa passou hoje por sua sexta greve de 24 horas. Além disso, teve que enfrentar outras duas de 12 horas. No total de seu mandato, Alfonsín enfrentou treze greves gerais, e Menem oito. Segundo o Centro, dirigido pelo "think tank" Rosendo Fraga, enquanto que na primeira década depois da volta da democracia (1983) as greves tinham alto conteúdo político, mas desde meados dos anos 90 o aumento do desemprego passou a ser o principal motivo destes protestos. O porta-voz do presidente De la Rúa, Juan Pablo Baylac, afirmou que a sociedade argentina "está farta de greves". Baylac pediu uma "trégua política e social" que possibilite a recuperação da economia. O secretário-geral da presidência, Nicolás Gallo, sustentou que a trégua deveria durar 200 dias. Imagem Os sindicalistas possuem uma má imagem na população argentina. Segundo uma pesquisa da consultora Analogias, 75,3% dos argentinos possuem uma imagem negativa sobre Moyano (CGT dissidente), e 61,5% sobre Daer (CGT oficial). A própria greve, apesar da grande paralisação no país, não era desejada por 70% da população, que preferia não ter que perder um dia de trabalho. Uma pesquisa recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sustenta que 84% dos trabalhadores não confiam nos sindicatos. Na véspera da greve, o governo contra-atacou as lideranças sindicais divulgando seus elevado salários. O porta-voz do presidente De la Rúa, Juan Pablo Baylac, afirmou que o salário de Moyano é de US$ 5,9 mil. Daer teria um salário de US$ 9,1 mil incluindo subsídios para "gastos extras". O governo afirma que possui dados que indicam que em média, 28 mil líderes sindicais em todo o país recebem salários entre US$ 3,5 mil e US$ 12 mil.

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