Argentina tem série de espancamentos de ladrões

Em um caso, na cidade e Rosário, homem roubou uma bolsa e foi chutado até a morte

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires ,

02 de abril de 2014 | 15h39

BUENOS AIRES - Uma série de espancamentos de ladrões ocorre na Argentina nos últimos onze dias. Nesse período, em diversas cidades do país, treze pessoas detidas em flagrante por roubo foram espancadas. Desfigurados pela surra, doze ladrões foram salvos pela polícia.

Em um caso, em Rosário, David Moreira, de 18 anos, roubou a bolsa de uma idosa e foi chutado até a morte pela multidão. O linchamento foi feito por cerca de 50 pessoas.

No bairro de Palermo, em Buenos Aires, um ladrão, na garupa de uma moto, roubou a carteira de uma mulher e foi espancado por diversas pessoas que passavam pelo local. A situação foi interrompida quando a polícia insistiu em levá-lo para a delegacia.

No bairro de Irupé, na cidade de Córdoba, um grupo de pessoas bateu em um homem de 34 anos, acusado de roubar a mochila escolar de uma menina de 12 anos. O ladrão, que também estava em uma moto, foi derrubado no chão.

Enquanto algumas pessoas o espancavam, outros destruíam seu veículo. "Batemos nele, mas não para matar", explicou o pai da menina roubada, Pablo, alegando que sua filha "poderia ter sido morta ou ferida" pelo ladrão.

Outros casos ocorreram nas cidades de La Rioja, General Roca e Santa Fe. Os ladrões, pegos ao assaltar residências e comércios, levaram chutes, socos, pedradas e vassouradas. Em La Rioja, o ladrão gritou por ajuda e implorou para ser preso.

Em Córdoba, a polícia salvou um ladrão de ser enforcado pela multidão. A polícia também teve que separar os agressores que brigavam entre si para decidir quem seria o próximo a bater no ladrão.

Os casos coincidem com um aumento da criminalidade nos últimos anos e a crescente irritação da população com a falta de segurança. Nos primeiros seis meses de 2013, na província de Buenos Aires (que acumula 38% da população do país), quatro pessoas foram assassinadas por dia. Nesse período ocorreram 356 mil denúncias de delitos, principalmente assaltos.

Reações. O secretário de Segurança, Sergio Berni, afirmou que os autores dos espancamentos são "assassinos" que devem ser "condenados". Mas admitiu que "as pessoas estão reagindo porque estão fartas", já que "a Justiça não pode ou não cumpre seu papel". Segundo Berni, homem de confiança da presidente Cristina Kirchner na área policial, "80% das detenções não vão a julgamento".

"Precisamos de olhares e de vozes que tragam tranquilidade, não desejos de vingança e de ódio", afirmou Cristina. "O melhor antídoto contra a violência é a inclusão social."

A oposição afirma que desde o primeiro mandato da presidente, em 2007, a pobreza cresceu de 20% para mais de 30%, embora o governo alegue que não passa de 7% da população.

A Igreja Católica, por intermédio do arcebispo José Maria Arancedo, criticou os espancamentos, afirmando que ações de Justiça por mão própria "agravam os problemas".

Um dos líderes da oposição, o deputado Sergio Massa - representante do Peronismo Renovador, apontado como possível presidenciável - colocou a culpa no governo: "os atos de Justiça por mão própria devem ser condenados. Mas tudo isso acontece porque o Estado está ausente e a sociedade não aguenta mais conviver com a impunidade."

Um dos juízes da Corte Suprema de Justiça, Eugenio Zaffaroni, afirmou que os espancamentos "não constituem atos de justiceiros. Eles são homicídios. Uma coisa é deter uma pessoa e exercer certa violência para conseguir isso. Outra coisa é matar uma pessoa com chutes."

Confundidos com ladrões, Leonardo Medina e Oscar Bonaldi foram espancados em Rosario. Os dois foram confundidos com uma dupla que assaltou uma agência de táxis e foram surrados com uma barra de ferro. "Tive medo. Eram muitos", contou Medina.

 

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