Argentina vive explosão de saques e confrontos

Violentos protestos e saques explodiram nas últimas horas em quase toda a Argentina, e o presidente Fernando de la Rúa chegou a ser questionado sobre a decretação de estado de sítio. Apesar da situação de descontrole e a preocupação geral entre as forças de segurança, o presidente decidiu apenas apelar ao "bom senso" dos argentinos.Em Buenos Aires, além do trânsito caótico durante todo o dia, intensificaram-se na tarde desta quarta-feira os ataques a hipermercados, supermercados e mercearias. Um dos maiores supermercados da rede Coto, em Ciudadela, foi defendido pelos próprios empregados, "armados" com paus e cabos de vassoura, liderados pelo proprietário, Alfredo Coto.Foram saqueados até caminhões carregados com alimentos e outros produtos de primeira necessidade, para distribuição nas ruas. Em Córdoba e na cidade de La Plata vários protestos deixaram mais de 20 pessoas feridas com balas de efeito moral, gás lacrimogêneo e pedras.BloqueiosO trânsito esteve complicado também em várias partes do país, por causa de protestos e bloqueios de avenidas e rodovias. Na cidade de San Isidro, a 30 quilômetros de Buenos Aires, o próprio prefeito aconselhou os empresários a manterem o comércio fechado. Comerciantes fecharam as portas também em Moreno, Tres de Febrero, Vicente López, Malvinas Argentinas e San Miguel, perto da capital.Em Boulogne, um homem foi ferido por um tiro quando tentava saquear um supermercado. Em Ciudadela, segundo o jornal Clarín, cerca de 600 pessoas saquearam durante duas horas um hipermercado e só foram controlados com a chegada da polícia. Nos bairros de Villa Lugano, Flores, Agonomía e Barracas da capital, a polícia reforçou a vigilância em frente aos supermercados.DesestabilizaçãoO presidente De la Rúa está certo de que há uma organização com fins de desestabilização política por trás dos saques. Segundo o secretário de Fazenda, Jorge Baldrich, o governo está trabalhando para conseguir US$ 6 milhões para comprar alimentos e distribuir aos mais carentes.As emissoras de televisão fazem paralelos com as imagens vividas em 1989, por ocasião da hiperinflação, quando saques aos supermercados e lojas foram a marca popular da crise que culminou com a renúncia de Raúl Alfonsín, seis meses antes do final de seu mandato. Naquela época, o país sofreu 676 saques efetuados por cerca de 50 mil pessoas, das quais pouco mais de três mil foram detidas, 17 morreram e 109 ficaram feridas.Presidente perturbadoDe la Rúa está visivelmente perturbado e chegou a suspender um brinde de fim de ano que teria com os jornalistas que cobrem a Casa Rosada. O presidente foi vaiado e insultado quando entrava à sede da Igreja Caritas para reunir-se com o monsenhor Jorge Casaretto. Os manifestantes jogaram ovos no carro presidencial.De La Rúa fez um apelo para que a população faça uma reflexão diante do momento de crise que se está vivendo. As declarações do presidente foram dadas a um grupo de jornalistas que cobrem a Casa Rosada.O governador da província de Buenos Aires, Carlos Ruckauf, apesar de preocupado com a situação, já tira proveito político, comparando-a com o governo Alfonsín, em 1989, durante a hiperinflação. No entanto, Ruckauf admite: "Há fome, mas há muito mais deliqüentes neste movimento e saberemos diferenciá-los".O ministro do Interior, Ramón Mestre, disse que "os saques não são por fome" e sim devido a uma questão política. "Os saques não podem ser por fome, (porque) levam bebidas alcoólicas; trata-se se uma questão política", disse.Leia o especial

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