Rodrigo Abd / AP
Rodrigo Abd / AP

Argentinas favoráveis à legalização do aborto falam em continuar lutando após veto no Senado

Ativistas afirmaram que legisladores não refletiram a vontade da maioria; projeto de lei foi rejeitado por 38 votos a 31

O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2018 | 12h47

BUENOS AIRES - "Que seja lei!" Como um grito de guerra, centenas de mulheres seguiram repetindo a frase de esperança quando, nas primeiras horas desta quinta-feira, 9, o Senado argentino rejeito a proposta de legalização do aborto. Depois de mais de 17 horas nas ruas, muitas continuaram nos arredores do Congresso. Dezenas de milhares de manifestantes já haviam voltado para casa diante do frio e chuvas torrenciais, além da certeza crescente de que o resultado seria adverso.

Por volta das 3 horas da manhã, quando a rejeição à proposta era realidade, a briga estourou do lado verde. A cor identifica a luta pela legalização do aborto. Do outro lado da Praça do Congresso, depois de várias barreiras e policiais, o grupo auto-intitulado "pró-vida", que rejeitava a legalização, celebrou com entusiasmo e fogos de artifício.

"Este é apenas o começo. Não poderão parar a maré feminista que veio para mudar a Argentina. Mais cedo ou mais tarde, será lei", escreveu a deputada Victoria Donda, no Twitter, após o fim da sessão no Senado. Ela foi uma das apoiadoras do projeto no parlamento.

A 700 metros do local, uma tela gigante transmitia a discussão ao vivo. "Seja homem, seja homem", gritavam as pessoas, enquanto falava um senador contrário à legalização do aborto.

"Vamos seguir lutando, como fazemos há muitos anos", disse Sofía Spinelli, de 26 anos, que marchava com seu grupo político, Marabunda. Ela diz ter vivido dias históricos. "Ganhamos nas ruas, mas a representação política não é fiel ao que se pensa nas ruas." Para as mulheres mais jovens, foi a primeira luta, mas também a primeira derrota. Muitas choraram por indignação e raiva.

"É um retrocesso mais legal do que social. As mulheres fizeram todo o avanço. Nas ruas, o aborto já é legal, nos bairros, o aborto é legal, os que não perceberam isso são aqueles no Senado", lamentou Mailén, de 24 anos, do grupo Miguelito Pepe, que trabalha com jovens em bairros desfavorecidos. Com os olhos vermelhos por tanto chorar, ela admitiu a frustração. "Ter (a vitória) tão perto e ela escapar das nossas mãos dá muita raiva e indignação".

As mais velhas recomendaram que se afastassem da área para evitar a violência ou provocações. Momentos depois, perto do prédio do Congresso, houve brigas entre algumas das pessoas que haviam ficado para trás. Oito foram presas.

"Nós ganhamos em um milhão e meio de jovens e se os senadores votam contra a lei, seremos nós que ficaremos na história. Se não for (aprovada) amanhã (esta quinta-feira), será no próximo ano", disse a advogada Nelly Minyersky, de 89 anos, uma das líderes históricas da Campanha Nacional pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito.

Desde o início da votação na manhã da quarta-feira 8, os arredores do Congresso se encheram de mulheres usando lenços verdes, com os rostos pintados, perucas, bolsas e vestimentas verdes. "Aborto legal no hospital", entoaram várias vezes durante o dia, em uma vigília em massa, quando ainda tinham esperança de que a lei, há muito tempo aguardada, fosse aprovada. 

Não houve descanso. As mais jovens se entregaram à manifestação com paixão. "Abaixo o patriarcado, vai cair. Acima o feminismo, que vai vencer", cantavam.

"Não se trata de aborto sim ou aborto não. Se trata de aborto legal ou ilegal", disse Adriana Saucedo, de 57 anos, citando um dos slogans da campanha. De acordo com ONGs, cerca de 500 mil abortos são realizados por ano na Argentina, resultando na morte de centenas de mulheres, das quais um quarto tem menos de 25 anos.

"Ficou provado que a Argentina é, foi e será pró-vida para sempre. Estamos aqui para defender a vida, para defender a criança", disse Mariana Rodriguez Valera, após a votação. Ela foi uma das milhares que aguardavam do lado azul celeste, defensor das "duas vidas" - mãe e filho -, e falou com a tranquilidade da vitória. 

Lenços azuis se misturavam às bandeiras da Argentina. Com muito mais manifestantes do sexo masculino, o grupo se misturava a cruzes e rosários e realizava orações. "Estamos felizes porque é uma celebração da democracia, do federalismo, do triunfo das duas vidas", disse Ayelen Caffarena. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.