AP Photo/Agustin Marcarian
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Argentinas fazem 'mamaço' em praças por direito de amamentar em público

Em Buenos Aires, a cena mudou um dos principais cartões-postais da cidade, o Obelisco, sob o qual pelo menos uma centena de mulheres expressou sua indignação no "mamaço" coletivo neste sábado

Rodrigo Cavalheiro CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2016 | 20h45

Milhares de bebês engordaram alguns gramas graças ao protesto de suas mães, que ocuparam praças da Argentina em nome do direito exibir os seios para alimentá-los em qualquer lugar. Em Buenos Aires, a cena mudou um dos principais cartões-postais da cidade, o Obelisco, sob o qual pelo menos uma centena de mulheres expressou sua indignação no "mamaço" coletivo neste sábado, 23. Atos simultâneos, marcados para as 15 horas, foram convocados depois que duas policiais impediram, no dia 12, uma mulher de 22 anos, Coni Santos, de dar o peito ao filho de 9 meses em San Isidro, a 20 km da capital argentina.

"Combatemos a aversão às mamas de fora com mais mamas de fora", disse a professora de história Guadalupe Fernández, que dá aula em uma escola secundária numa favela no bairro de Flores. Segundo ela, parte de seus alunos exibe os traços de criação patriarcal que considera responsável por casos como o de Coni, que relatou ter sido retirada "pelo braço' pelas policiais depois de perguntar se lei a proibia de fazê-lo. "Homens e mulheres absorvem essa visão que torna o feminino um objeto e reproduzimos essa prática", opinou Guadalupe, mãe de Malena, de 1 ano e 2 meses, que a esta altura corria ao lado do pai com uma gota de leite ainda escorrendo pelo queixo.

Tradicional lugar de manifestações embaladas com gritos e músicas embaladas por percussão, o Obelisco desta vez testemunhou um protesto em que o ruído mais chamativo era o das crianças rindo e chamando os pais. Victoria, de 1 ano e 8 meses, segurava a pedido de sua mãe, Nadia, um cartaz que dizia: "A única mama que os incomoda é a que não pode vender". 

Um argumento repetido pelas manifestantes era que a exibição de seios em contexto sexual tornou-se mais aceita que sua mostra no seu uso natural. "Há seios que podem ser vistos e outros não. Essa inversão ocorre porque o corpo feminino tornou-se um produto. Pode-se fazer várias coisas com um seio, mas sua função original é amamentar", reclamou Natalie Rodgers, mãe de Sheyne, de 9 meses. Defensora do princípio da demanda livre durante o aleitamento, Natalie esclareceu que, como vegana, estendia sua reivindicação ao mundo animal. "É desnecessário que o terneiro seja separado da vaca e esta seja ligada a uma máquina para nos abastecer com leite. O leite que faz falta é o materno", defendia.

Entre tantos seios de fora sob o Obelisco, os mais fotografados eram provavelmente os da atriz Eliana Wassermann, de 35 anos. Ela chamava atenção pela naturalidade com que mantinha as gêmeas Sibelina e Galatea, de 11 meses, equilibradas nas duas mamas enquanto conversava com amigas ou dava uma entrevista.

"Não acreditei quando soube da história de San Isidro. Como atriz, fiquei curiosa para saber como essas policiais foram educadas, que tipo de família tiveram. Vivemos às vezes em uma bolha e não sabemos que até dentro de casa há 'dicas' para amamentar no quarto e não na sala", afirmou. Com as gêmeas, Eliana diz que não passa despercebida quando dá o peito, sempre simultaneamente, em público. "Nunca enfrentei reprovação porque acho que inibo qualquer crítica, levanto uma barreira. Amamento em intervalos que vão de 2 a 4 horas, mesmo durante a noite", explicou.

A jovem que motivou a mobilização nacional disse não ter conseguido fazer uma denúncia no dia do fato, mas a repercussão levou a corregedoria da secretaria de Segurança da Província de Buenos Aires a chamar as policiais a depor. A prefeitura de San Isidro se disse a favor do aleitamento materno e pediu à polícia que reveja suas práticas. 

A vice-governadora de Mendoza, Laura Montero, publicou na internet uma foto dela amamentando para engrossar o protesto local, na Praça Garibaldi. Também durante a promoção do evento, duas apresentadoras de um noticiário de Río Negro, no sul do país, deram as manchetes alimentando os filhos nos braços.

Chamadas em espanhol de "tetazos" ou "piquetetazos" - brincadeira alusiva aos piquetes, forma típica de protesto local, em geral com bloqueio de rua -, reuniões semelhantes ocorreram em La Plata, Rosário, Córdoba, Salta e em San Isidro. Por volta das 17 horas, quando o sol começou a se esconder atrás dos prédios da Avenida 9 de julho e os 13ºC já não favoreciam esse perfil de protesto, os cartazes que diziam "amamento onde eu quero" foram recolhidos do chão e o grupo do Obelisco se dispersou. 

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