Argentinos especulam sobre candidatura do filho da presidente

CENÁRIO: Rodrigo Cavalheiro

O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2015 | 02h05

O filho da presidente Cristina carrega, além do sobrenome Kirchner, a fama de ser um excelente jogador de videogame. Por isso, quando ele disse em sua primeira entrevista, na terça-feira, que seria candidato a algo, os principais atores políticos da Argentina começaram a se perguntar: "A quê?".

As respostas governistas variaram entre prefeito de Río Gallegos, capital da província sulista de Santa Cruz, a sucessor de Cristina. No entanto, a aposta mais usual foi deputado pela Província de Buenos Aires, algo menos arriscado. Se ele perde a eleição para prefeito (e ele não tem mais de 7% das intenções de voto) ou se fica em último nas prévias de agosto para presidente, seu futuro e o do sobrenome estariam em risco.

"É estranho Máximo aparecer dessa forma, pois até pouquíssimo tempo não se sabia qual era sua voz, era um mistério sem muita transcendência", disse ao "Estado" o cientista político Carlos De Angelis, professor da Universidade de Buenos Aires.

O analista avalia que líderes populistas fortes normalmente são pressionados para deixar um herdeiro e cita os casos de Juan Domingo Perón, Getúlio Vargas e Hugo Chávez, que não puderam dizer "esse é meu filho". Para ele, o certo é que em países como a Argentina o sobrenome não é algo menor, ainda que não seja exatamente decisivo. Alicia Kirchner, ministra de Desenvolvimento, e irmã de Néstor, morto em 2010, não conseguiu expressão política.

Na opinião de De Angelis, o que deve mudar o quadro político é uma candidatura de Cristina Kirchner. "Se ela estiver no Congresso, qualquer um que chegue à presidência sabe que a opinião dela será constantemente ouvida", afirma o professor.

De Angelis acredita que Cristina se manterá na política mais para influenciar o governo e menos por proteção contra os processos por corrupção que envolvem a família. "Há um pacto implícito de não perseguição judicial ao presidente anterior", avalia.

A indefinição sobre o rumo da candidatura de Máximo, provavelmente, é uma estratégia para a escolha do nome kirchnerista à presidência. Em troca da bênção da presidente - que demonstra preferir o ministro dos Transportes, Florencio Randazzo, com menor chance de vitória em outubro, segundo pesquisas -, o governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, está sendo pressionado para abrir mão da escolha do vice e dos nomes que compõem a lista de candidatos ao Parlamento. "A candidatura de Máximo, nesse caso, funcionaria como um fantasma, para forçar Scioli a aceitar essa condição e deixar Cristina escolher os nomes", diz De Angelis.

A trajetória política de Máximo, de 38 anos, se resume à criação da juventude kirchnerista La Cámpora, que tem conquistado cargos no governo argentino nos últimos meses. O movimento é uma aposta da presidente para substituir como base os principais sindicatos, com quem rompeu em 2011.

Deste setor veio justamente a crítica mais jocosa à falta de experiência de Máximo. "Pode ser um bom candidato no Mundial de PlayStation. Ele é uma incógnita", disse Pablo Moyano, número 2 do principal sindicato de caminhoneiros, a CGT.

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