Argentinos já pagam ágio para trocar peso por dólar

A conversibilidade econômica, que durante dez anos estabeleceu a paridade um a um entre o peso e o dólar, já é uma ilusão. Hoje, milhares de portenhos - com fortes suspeitas de uma iminente desvalorização da moeda nacional - tomaram as ruas do centro de Buenos Aires para tentar desesperadamente trocar seus pesos por dólares. As ruas San Martín, Sarmiento e Reconquista, no coração da ?city? financeira, onde estão as principais casas de câmbio da cidade, estavam abarrotadas de pessoas. No entanto, trocar 1 peso por 1 dólar, como foi costumeiro ao longo da última década, foi impossível. As casas de câmbio somente aceitavam dar 1 dólar em troca de 1,30 peso. O ministro da Economia, Domingo Cavallo, persiste em afirmar que a conversibilidade permanece. Mas, na prática, os argentinos deixaram de confiar no peso e - depois de dez anos de tranqüilidade cambial - voltaram a acreditar somente no dólar. Desta forma, embora o governo não tenha assinado o atestado de óbito, a conversibilidade já morreu para a população.No interior do país, o cadáver da conversibilidade já estava em estado de putrefação. Na cidade de Córdoba, a segunda da Argentina, na hora do almoço as casas de câmbio somente vendiam dólares em troca de 1,40 pesos, câmbio que no fim da tarde se aproximou de 1,50. A corrida em busca da moeda americana disparou desde segunda-feira, o primeiro dia do semicongelamento dos depósitos bancários, anunciado no fim de semana passado pelo ministro Cavallo. No entanto, nesta sexta-feira, os intensos rumores de que na segunda-feira o congelamento dos depósitos será geral, e de que seria complementado com uma desvalorização da moeda, seguida da uma eventual dolarização, assustaram a população. Os rumores de desvalorização e de confisco geral foram divulgados desde quinta-feira à noite pelos canais de TV e rádio.Hoje, ao longo do dia, o boca a boca foi fundamental. Metade da população da Argentina concentra-se em Buenos Aires e sua região metropolitana, o que torna fácil que uma informação ou boato se espalhe rapidamente.O comportamento nas ruas do centro portenho seguia como se a desvalorização já fosse oficial. O temor cresceu quando os clientes dos bancos perceberam que dos caixas eletrônicos não saiam o limite máximo de US$ 1.000 prometido por Cavallo na quarta-feira à noite. O pânico se espalhou com o rumor de que alguns bancos particulares de capital argentino - entre os quais alguns dos maiores do país - estariam a ponto de anunciar suas falências.O temor que percorria a espinha de cada argentino endividado é que uma desvalorização colocaria em colapso sua capacidade de pagar a maior parte de seus débitos, que estão tradicionalmente em dólares. Ao redor de 85% das dívidas da população, como aluguéis, créditos e hipotecas, estão em dólares.As notícias pessimistas sobre as reuniões de Cavallo em Washington com o Fundo Monetário Internacional (FMI) aceleraram o processo de desconfiança e a certeza de que "o fim" estava próximo.Enquanto nas ruas o pânico se espalhava, os principais assessores do presidente Fernando de la Rúa se atarefavam para conseguir um consenso político amplo, que permitisse salvar o país do colapso. Todos os esforços se concentravam em obter apoio para a aprovação do Orçamento Nacional do ano 2002, que implicaria em um ajuste de proporções históricas para a Argentina, com um corte de US$ 10 bilhões em relação ao deste ano.A Casa Rosada, a sede do governo, transformou-se no quartel-general das operações. Ali, desde cedo, o chefe do gabinete de ministros, Chrystian Colombo, reuniu-se com Carlos Ruckauf, governador da província de Buenos Aires, a principal província do país. Tanto Ruckauf como os governadores Carlos Reutemann, da província de Santa Fé, como José Manuel de la Sota, da província de Córdoba, mostraram-se irredutíveis e afirmaram que somente apoiariam o governo quando a União pagasse as dívidas que possui com as províncias.Angel Rozas, presidente da UCR, o partido do presidente De la Rúa, afirmou que era "iminente" um acordo entre o governo e o partido Justicialista (Peronista), da oposição. O peronismo possui ampla maioria no Senado e é o principal partido na Câmara de Deputados.Diante da frieza dos governadores peronistas, os verdadeiros "caciques" do partido, De la Rúa estava prestes a se reunir com o ex-presidente Carlos Menem, que controla uma porção pequena do peronismo, mas que estaria disposto a apoiar seu desafortunado sucessor. No entanto, no meio do caos político e financeiro, "El Turco", como é conhecido Menem, não perdeu a oportunidade para dar suas espetadas, sustentando que a Argentina "está mais próxima de uma desvalorização do que de uma dolarização da moeda". Os assessores do ex-presidente complementaram: "agora é tarde para fazer uma dolarização da forma como Menem propunha". O ex-presidente é um defensor exacerbado da dolarização da economia argentina desde 1999, quando, em seu último ano no poder, pregou pelo fim do peso e sua substituição pela moeda americana.No fim do dia, o presidente De la Rúa, ao deixar a Casa Rosada, afirmou que Cavallo permanecerá todo o fim de semana em Washington, negociando com o FMI. "As reuniões foram muito positivas, em um clima cordial", disse De la Rúa, com extrema calma, sobre o desempenho do ministro nos EUA.

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