Argentinos lembram 30 anos de golpe militar

Milhares de argentinos deverão sair às ruas de Buenos Aires entre a noite de quinta e a madrugada desta sexta-feira para lembrar os 30 anos do golpe militar que instituiu uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina. Conhecidas internacionalmente por sua persistente luta pela punição dos responsáveis pelo desaparecimento de milhares de civis durante os sete anos de duração do regime, as "Mães da Praça de Maio" realizarão uma vigília entre às 21 horas de quinta e 3h20 de sexta na Praça de Maio, no centro de Buenos Aires. O horário escolhido para o término da manifestação marca a hora exata em que os militares argentinos anunciaram, há 30 anos, a instauração do regime. Durante o ato, serão projetadas as fotos de 3.600 desaparecidos entre os anos de 1976 e 1983, período de vigência da ditadura militar. Segundo associações de direitos humanos, 30 mil civis foram assassinados nesses sete anos. Isso equivale a cerca de 1 morto para cada 900 habitantes do país. Para efeito de comparação, no Brasil, o número de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar (1964-85) está na casa de 1 morto para cada 247.340 habitantes. Outras manifestações Embora o assunto deva se tornar mais latente a partir desta sexta-feira, durante toda a semana grupos de manifestantes realizaram protestos para lembrar o golpe. No final de semana, mais de 6 mil pessoas se reuniram diante do residência do ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla - primeiro presidente do regime militar - num ato para "escrachar" o militar. Neste tipo de protesto, os manifestantes vão até a residência de alguém para repudiá-lo e divulgar seus crimes aos vizinhos. Videla cumpre prisão domiciliar por graves violações aos direitos humanos durante a ditadura. Os manifestantes jogaram bolsas de tinta vermelha contra as paredes e janelas do apartamento, no quinto andar. Já nesta quinta-feira, os protestos foram menos conturbados. A começar pela instalação de uma bandeira da Argentina de proporções gigantescas diante da fachada do edifício da "Asociación Mutual Israelita Argentina" (AMIA), principal grupo judaico do país. Na bandeira, lia-se apenas: "Nunca Mais". Em 1994, o prédio foi alvo de um atentado que deixou 85 pessoas mortas e centenas de feridos. Também na quinta, dois atos marcaram a data no Congresso Nacional. O golpe No dia 24 de março de 1976, os militares argentinos derrubaram a presidente María Estela Martínez Perón, conhecida como Isabelita. Viúva do lendário líder argentino Juan Domingo Perón, Isabelita tomou um ano e meio antes do golpe, após a morte de seu marido, então presidente argentino. Mas, inexperiente na política, a ex-bailarina Isabelita levou o país a um caos político que culminou na intervenção militar. Na ocasião, vários setores da sociedade argentina apoiram o golpe. Os resultados negativos, no entanto, logo foram sentidos pela população. Em sete anos de regime, a dívida externa argentina saltou de US$ 8 bilhões para US$ 45 bilhões, e o número de argentinos vivendo abaixo da linha da pobreza subiu de 5% para 28% da população. Isso, somado à brutal repressão liderada pelos militares, levaram à total rejeição do regime, que se dissipou em 1983. Na edição desta sexta-feira, o Estado traz uma reportagem especial que aborda as conseqüências do golpe sobre a maneira como a população vê as forças armadas do país.

Agencia Estado,

23 Março 2006 | 22h16

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