Argentinos lembram os 25 anos de invasão das Malvinas

Há exatamente 25 anos, no dia 2 de abril de 1982, os argentinos acordaram com a notícia de que as tropas do ditador Leopoldo Fortunato Galtieri haviam realizado o sonho territorial do país, isto é, a reconquista das ilhas Malvinas. As tropas haviam desembarcado a poucos quilômetros do vilarejo de Port Stanley, capital das ilhas, às 0h30. Ao raiar do sol, comandos da Marinha haviam tomado os edifícios do governo local e aprisionado a pequena guarnição britânica.A população argentina festejou com fervor nacionalista a invasão. Em todo o mundo, a notícia do desembarque argentino causou perplexidade, já que um país latino-americano desafiava uma potência de segunda magnitude, integrante da OTAN.O ditador Galtieri respirava aliviado, já que com esse golpe de efeito, conseguia mais oxigênio para seu governo, que começava a ser abalado pela crise econômica. Os integrantes da Junta Militar estavam confiantes, pois acreditavam ingenuamente que a primeira-ministra britânica Margareth Thatcher se resignaria à perda das ilhas.Nas ruas, os argentinos celebraram a reconquista das ilhas. Uma onda nacionalista também atingiu quase tudo que tivesse um toque inglês. A Avenida Canning foi rebatizada de Scalabrini Ortiz (nome de um político nacionalista). A farmácia "La Franco Inglesa", em plena rua Florida, no centro portenho, modificou seu nome para "La Franco". Os donos do bar Británico, ponto de encontro de intelectuais no bairro de San Telmo, rapidamente apagaram a primeira sílaba do letreiro, transformando o lugar no "Bar Tánico". A história da Torre dos Ingleses, no bairro de Retiro - uma elegante construção que ostenta os escudos britânicos - foi depredada por uma turba furiosa. Várias escolas de inglês foram apedrejadas.Estratégia improvisadaO tenente-general Martín Balza, um dos heróis argentinos da Guerra das Malvinas (1982), declarou que a estratégia bélica do então ditador do país, o general Leopoldo Fortunato Galtieri, e da Junta Militar que comandava a Argentina com mão de ferro, foi "improvisada, com falta de previsões e incompetente". Segundo Balza, os líderes militares agiram com "desprezo" em relação aos soldados.O entusiasmo nacionalista do general Galtieri foi um erro fatal, já que Londres ordenou o envio da maior frota naval visto desde a Segunda Guerra Mundial. Em dois meses e meio de guerra as tropas argentinas foram derrotadas, com aproximadamente mil baixas.A derrota foi o golpe de misericórdia na Ditadura. Um ano depois, os argentinos iam às urnas para votar no primeiro presidente civil desde o golpe militar de 1976.Balza foi chefe do Estado-Maior do Exército nos anos 90. Na época, tornou-se o primeiro líder militar a realizar um mea culpa das Forças Armadas pelas graves violações aos Direitos Humanos cometidos durante a última Ditadura Militar (1976-83). Durante a Ditadura os militares assassinaram mais de 30 mil civis.Balza, um dos poucos militares argentinos com prestígio entre os civis (atualmente é embaixador da Argentina na Colômbia), sustentou que a guerra de 1982 "foi absurda, inédita e não pensada".No entanto, o general Balza destacou a coragem dos soldados argentinos que lutaram no gélido arquipélago contra as tropas britânicas. "Nossos homens lutaram pelo sentimento que temos sobre as Malvinas, independentemente da idiotice da Junta Militar, que aproveitou-se do sentimento popular pelas ilhas com o objetivo bastardo de prolongar a desprestigiada Ditadura, que naufragava".ProsperidadeDesde o fim da guerra, as ilhas viveram um período de intensa prosperidade. Hoje, elas possuem a renda per capita mais elevada da América Latina, de mais de US$ 25 mil.A Grã-Bretanha ocupou as ilhas em 1833, ano em que a fragata inglesa Clio disparou seus canhões contra o vilarejo de Puerto Soledad, expulsando os habitantes argentinos. Nas décadas seguintes colonizou as ilhas com imigrantes escoceses, irlandeses e galeses.Durante quase um século e meio os ilhéus - denominados "kelpers" - viveram calmamente de forma espartana da pesca e da exportação de lã.Desde o fim da guerra os kelpers recusaram todo tipo de aproximação diplomática com a Argentina. Nos últimos anos começou um movimento para declarar a autonomia das ilhas.Os analistas em Buenos Aires sustentam que uma eventual declaração de autonomia das ilhas colocaria a pique as reivindicações territoriais argentinas.As ilhas contam atualmente com 3 mil habitantes que possuem a renda per capita mais elevada da América do Sul, de US$ 25 mil anual.

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