Argentinos protestam contra permanência de papeleira

O Tribunal Internacional de Justiça, com sede em Haia, na Holanda, emitiu hoje sentença que não avaliza a transferência da fábrica de celulose e papel construída no Uruguai para outra região, como queria a Argentina. De acordo com os argentinos, a fábrica construída às margens do Rio Uruguai polui o ambiente e prejudica o turismo na província argentina de Gualeyguachú.

MARINA GUIMARÃES, Agência Estado

20 de abril de 2010 | 18h31

Para a Corte, no entanto, não há provas de que a fábrica contamina o ecossistema do rio compartilhado pelos dois países. Nesse contexto, os juízes avaliaram que "não é adequado" ordenar "a interrupção" das operações ou "o desmantelamento" da fábrica. Contudo, por 13 votos a 1, o tribunal considerou procedente a denúncia da Argentina de que o Uruguai violou o estatuto bilateral que rege a administração do rio fronteiriço.

Os ambientalistas da cidade de Gualeyguachú preparam uma passeata amanhã contra a permanência da fábrica. Os manifestantes também afirmaram que vão manter o bloqueio da principal ponte que liga a Argentina e o Uruguai, fechada há mais de três anos. "A decisão do Tribunal é uma trapaça contra o povo de Gualeguaychú", protestaram manifestantes concentrados na localidade de Arroyo Verde, na província de Entre Ríos, do lado argentino, onde assistiram ao veredicto num telão. Muitos choravam.

"Tínhamos expectativas de uma decisão mais firme, que obrigasse a transferência da fábrica porque o que todos tememos é que a fábrica continue aí e que em algum momento vai contaminar nossas águas e nosso meio ambiente", disse o governador da Província de Entre Rios, Sergio Urribarri, ao canal de TV TN. No entanto, o governador afirmou que a sentença vai evitar que novas unidades de celulose e papel sejam construídas às margens do rio.

O chanceler do Uruguai, Luis Almagro, declarou-se "satisfeito" com a decisão e disse que seu país aceitará as determinações do Tribunal.

Disputa

A ação legal teve início em 2006, mas a polêmica se arrasta desde 2004, quando o então presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, autorizou a construção da fábrica a três quilômetros da pequena cidade uruguaia de Fray Bentos. Do lado argentino está localizada a cidade de Gualeguaychú, que vive do turismo de suas praias sobre o rio e do Carnaval.

Os ambientalistas argentinos iniciaram uma forte campanha contra o projeto, e o antecessor da presidente Cristina Kirchner, seu marido Néstor Kirchner, iniciou uma feroz briga com Vázquez, estremecendo as relações bilaterais. O caso provocou a pior crise diplomática entre os dois países nas últimas décadas.

Vázquez pediu em diversas ocasiões a intervenção do Brasil no conflito, alegando que o bloqueio da ponte provoca prejuízos ao Uruguai e fere as normas do Mercosul sobre a livre circulação de bens e pessoas. Contudo, o Itamaraty se esquivou do problema e recusou o papel de mediador do conflito, uma tarefa que acabou nas mãos da Espanha. Com informações da Dow Jones.

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