Argentinos se revoltam contra cortes de energia

Dezembro mais quente dos últimos 107 anos agrava déficit energético e deixa 19 mil sem luz; oposição pede mudança no fuso horário do país

MARINA GUIMARÃES, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2013 | 02h00

O mês de dezembro mais quente dos últimos 107 anos multiplicou os cortes de abastecimento de energia na Argentina e levou milhares às ruas para protestar contra o governo de Cristina Kirchner. Com 19 mil pessoas há duas semanas sem luz - e sem bombeamento de água - a oposição sugere a mudança no fuso horário do país para reduzir o consumo elétrico.

Ontem, os termômetros marcaram 40,8°C em Buenos Aires, aumentando o drama dos argentinos, que piorou após um transformador explodir, por volta do meio-dia, afetando os bairros portenhos de Caballito, Almagro e Villa Crespo, que sofrem com cortes desde o início do mês - 800 mil já foram afetados pelos apagões.

Dezenas de piquetes e panelaços são realizados em diferentes pontos da cidade, nas pontes de acesso à capital e nos subúrbios. Nas redes sociais, muitos resgataram o grito de guerra "Que se vayan todos" ("Que saiam todos"), que marcou a renúncia do presidente Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001. Na sexta-feira, Buenos Aires foi sitiada por piquetes de moradores em diferentes bairros. Os protestos se intensificaram durante o fim de semana.

Em algumas áreas também há falta de água porque os motores das bombas de captação não funcionam sem energia. Os bombeiros são obrigados a resgatar idosos que não podem descer escadas de edifícios sem luz e sem água. A alta demanda de energia elétrica dos últimos 15 dias expôs a gravidade da crônica crise que debilita o governo. Um dos principais rivais políticos de Cristina, o prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, propôs uma mudança de fuso horário para amenizar os efeitos da elevada demanda durante o verão. Macri culpou o governo pela crise energética. "A responsabilidade é do governo, que não fiscalizou nem controlou as concessionárias." O ministro do Planejamento, Julio de Vido, considerou a proposta "absurda" e orientou Macri a "trabalhar mais".

Os ministros de Cristina culpam as duas companhias distribuidoras, Edesur e Edenor, ameaçadas de estatização se os serviços não forem normalizados. "Se as empresas investirem o que precisam, em 2014 os problemas poderão ser solucionados", disse Jorge Capitanich, chefe de gabinete de Cristina.

Ele negou que o país sofra uma crise energética, ressaltando que os problemas de distribuição são pontuais e a responsabilidade é das empresas. "Uma vez superada a onda de calor, o Enre (agência que regula o setor) avaliará a aplicação de multas às empresas de energia."

Ausente do cenário político desde outubro, quando foi operada de um hematoma no crânio, Cristina se permanece recolhida em sua casa em El Calafate, na Patagônia. Ontem, os governos provinciais, municipais e federal decidiram encerrar os trabalhos antes do feriado de ano-novo para poupar energia.

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