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Argentinos se unem por bicentenário sem esquecer diferenças políticas

Presidente Mauricio Macri criticou Cristina Kirchner ao comentar que gastou muito menos em festa deste ano do que a realizada pela ex-presidente em 2010

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2016 | 14h04

BUENOS AIRES - Pela segunda vez em seis anos, os argentinos comemoraram seu bicentenário. Em 2010, lembraram o começo do movimento de independência, em uma megacelebração que o kirchnerismo encaixou a seu projeto nacionalista. Neste sábado, 9, a população voltou às ruas para festejar a declaração de soberania, assinada em 9 de julho de 1816 em Tucumán, no norte do país. 

O presidente Mauricio Macri esteve na cidade para comandar a cerimônia, marcada pela sobriedade nos gastos e pela baixa afluência política. Apesar do esforço da Casa Rosada para convocar presidentes, a figura de maior destaque foi a do rei emérito espanhol, Juan Carlos. A presença dele causou controvérsia entre parlamentares e motivou boicote de alguns grupos indígenas à celebração. O Brasil foi representado pelo ministro da Defesa, Raul Jungmann.

Há seis anos, Cristina Kirchner gastou US$ 6,8 milhões na festa que reuniu os principais líderes da região, a maior parte alinhada a seu projeto político. Ao fim de seu mandato, ela havia desembolsado US$73 milhões em museus e eventos ligados à "marca bicentenário", uma forma de promover o ideal de Pátria Grande latino-americana, em oposição às grandes potências. A equipe de Macri, que desde dezembro prioriza a abertura política e comercial em sua política externa, anunciou com orgulho um gasto mais moderado, de US$ 4,6 milhões, na festa deste ano. "É mais importante investir do que gastar", disse Macri ao meio-dia deste sábado. "Não podemos jogar a culpa em ninguém do que aconteça conosco. Somos nós quem temos que escolher nossos projetos."

Na sexta-feira 8 - feriado também porque o dia 9 caiu num sábado -, o país entrou em vigília para cantar o hino exatamente à meia-noite, um hábito em restaurantes, shows de rua ou espetáculos culturais. As atividades de comemoração durarão até este domingo, quando ocorre o maior desfile, em Buenos Aires. 

Em seus discursos, Macri tratou do tema mais candente da Argentina que entra em seu terceiro século, o aumento de tarifas públicas. Na quinta-feira, a Justiça anulou um reajuste no preço de gás que havia chegado a 1000% em algumas regiões e logo limitado a 500% pelo governo. "Para evitar o abismo, tomei decisões difíceis", justificou o presidente na sexta-feira. 

No ato deste sábado, ele voltou ao assunto. Disse que dói a decisão de aumentar as contas e alegou ter encontrado um país "castigado pela mentira e pela corrupção". Diante do casarão no qual foi assinada a independência em Tucumán, Macri recebeu aplausos a cada pausa em seu discurso e ouviu gritos de "sim, se pode", lema da campanha que o levou à presidência em dezembro. Um trecho no qual criticou tentativas de redução de jornada de trabalho foi recebido com frieza. "Cada vez que um sindicato consegue reduzir a jornada de trabalho, todos os argentinos pagam", afirmou, em um apelo por união, solidariedade e combate à "viveza criolla", o equivalente argentino para "malandragem".

Seu pedido por diálogo, reforçado nos dias prévios à celebração, foi insuficiente. A governadora da Provincia de Santa Cruz, Alicia Kirchner, cunhada de Cristina e irmã de Néstor, faltou à cerimônia. Na quarta-feira, uma tentativa de fazer uma reunião de todos os parlamentares em Tucumán, como há 200 anos, foi ignorada por parte da bancada kirchnerista. 

Mensagem. Na sexta-feira, o papa Francisco enviou uma carta na qual defendeu que se cuide da Pátria Grande latino-americana, não se aceite qualquer tipo de colonização e não se venda a "mãe pátria". A mensagem foi usada por canais de TV e jornais kirchneristas para atacar Macri.

Alguns deputados opositores encontraram razões para criticar até a entrada na Argentina de militares estrangeiros convidados para tocar nas bandas que marcharão  até domingo em Buenos Aires. O governo ponderou que eles não ingressavam ao país com armas, e flautas e tambores não representavam perigo à soberania nacional. 

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