/ AFP PHOTO / Brendan Smialowski
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Argumentos de Trump para saída do pacto não se sustentam

Trump não parecia estar argumentando contra o acordo de Paris em si, mas contra a promessa do governo Obama de, sob o acordo, os EUA cortarem, até 2020, suas emissões de gases do efeito estufa

Chris Mooney / Bloomberg, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2017 | 05h00

O presidente americano, Donald Trump, voltou-se ontem contra o acordo climático de Paris na Casa Branca, mas foi difícil conciliar sua descrição particular do tratado com o que ele realmente é. “A partir de hoje, os Estados Unidos deixam toda participação no acordo não vinculante de Paris e a draconiana carga financeira e econômica que ele impõe a nosso país”, disse o líder republicano. A frase parece conter uma contradição lógica: se o acordo não é vinculante, que carga pode impor?

E essa contradição nos leva ao cerne da questão: Trump não parecia estar argumentando contra o acordo de Paris em si, mas contra a promessa do governo Obama de, sob o acordo, os Estados Unidos cortarem, até 2020, suas emissões de gases do efeito estufa de 26% para 28% dos níveis de 2005. O acordo, no entanto, não exige um corte específico de um país em particular: os Estados Unidos e qualquer outra nação podem escolher o próprio nível de redução. 

Trump também argumentou que os Estados Unidos tentarão “iniciar negociações ou para voltar ao acordo de Paris ou para chegar a uma negociação inteiramente nova, com termos mais equilibrados para os Estados Unidos, seus negócios, seus trabalhadores, seu povo, seus contribuintes”. 

Parece, porém, quase impossível convocar todos os países do mundo a reescrever o acordo de Paris quando esses países já estão implementando ativamente o acordo. “A ideia de que outros países aceitariam ‘renegociar’ o acordo de Paris é absurda, já que eles já fizeram uma ginástica para acomodar os interesses americanos, incluindo a ideia de que os limites para redução de emissões sejam definidos voluntariamente”, avaliou Paul Bledsoe, que foi conselheiro para a questão climática durante o governo de Bill Clinton.

“Outros países dificilmente estarão interessados em renegociar Paris ou negociar um acordo alternativo”, acrescentou Bob Perciasepe, presidente do Centro para Soluções Climáticas e de Energia americano, em um comunicado. “Mas os Estados Unidos ainda teriam o direito de ajustar os termos de sua participação no Acordo de Paris ao revisar suas metas de redução.”

A Casa Branca também divulgou informações escolhidas segundo as quais “pesquisadores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) calculam que, se todos os países participantes do acordo cumprirem suas metas de redução, o impacto no clima será insignificante. A redução da temperatura global seria de menos de 0,2° C em 2100”. 

Mas isso não é verdade, segundo John Sterman, pesquisador do MIT que analisa cenários de mudança climática, e Andrew Jones, pesquisador do centro de estudos Climate Interactive. As análises da dupla mostram que as atuais metas do acordo de Paris reduziriam o aquecimento global em 2100 de 4,2° C para 3,3° C, ou quase 1° C.

E isso, claro, seria apenas o começo – o acordo de Paris está estruturado para que os países participantes, sempre de modo voluntário, elevem suas ambições e cada um dê o máximo que puder. Assim, com o tempo, a capacidade do acordo de reduzir o aquecimento global deve melhorar. 

É o que provavelmente ocorrerá, embora, pelo menos segundo o que se vê no momento, os Estados Unidos não venham a tomar parte. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É JORNALISTA

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