Aristide é recebido com festa no Haiti

Ex-presidente encerra sete anos de exílio na África do Sul às vésperas de 2º turno

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Dezenas de milhares de haitianos em êxtase receberam ontem no aeroporto de Porto Príncipe o ex-presidente Jean Bertrand Aristide, que chegou ao Haiti a dois dias do segundo turno das eleições. Aristide discursou diante de jornalistas no saguão do aeroporto, prometendo agir "com amor" e "contra a violência". A disputa eleitoral, porém, nem sequer foi mencionada.

"Se vocês pudessem sentir meu coração, veriam como ele está batendo rapidamente. Está cantando uma canção para o Haiti", disse o ex-presidente, vestindo um traje azul. Para mostrar erudição, o ex-padre que militava nas favelas de Porto Príncipe falou em inglês, francês, espanhol, creole e até em swahili - ele passou sete anos autoexilado na África do Sul. Com ele, vieram sua família e Danny Glover, ator de filmes como Máquina Mortífera e Dog Ville, famoso defensor do ex-presidente.

Do lado de fora, um mar de haitianos cantava músicas do Lavalas, partido de Aristide, e empunhavam imagens do ex-presidente - que já foi professor primário - de beca. A multidão veio a pé, de moto, de carro, sobre caminhões e a cavalo recepcionar Aristide. "Ei, branco, agora que nosso presidente voltou, todos vocês vão ter de deixar nosso país", gritou um simpatizante do líder haitiano ao repórter do Estado.

Questionado sobre a possibilidade de partidários do ex-presidente atrapalharem as eleições, Jimi Leme, desempregado de 36 anos que, com lágrimas nos olhos, viu o avião de Aristide aterrissar, foi enfático: "Isso é impossível. Meu presidente é uma pessoa de amor. É ele que vai impedir a violência neste país", afirmou.

A história política de Aristide é marcada por reviravoltas. Ele foi o primeiro presidente eleito do Haiti, em 1990. No entanto, com apenas sete meses de governo, acabou deposto por um golpe militar. Em 1994, graças ao governo Bill Clinton, o líder do Lavalas retornou ao poder para concluir seu mandato, mas perdeu a reeleição para o atual presidente, René Préval.

Quatro anos depois, ele foi novamente reeleito e governou até 2004, quando a explosão de grupos armados o obrigou a deixar o Haiti em um avião americano. Até hoje ele diz ter sido "sequestrado" por marines.

Após o discurso no aeroporto, Aristide seguiu para sua casa em um comboio de veículos utilitários, que entre gritos e buzinas abriu espaço na multidão. As dezenas de milhares de pessoas foram atrás do presidente desde o aeroporto até sua mansão, cantando o hino do Haiti. Diante de um grupo de soldados brasileiros que estava no meio do trajeto, ouviu-se alguns tímidos gritos de "Fora Minustah!", como é conhecida a missão de paz da ONU no Haiti.

Os países que participam de forma mais direta da política haitiana, entre eles o Brasil, viram com certo alívio o primeiro discurso de Aristide, figura polarizadora na sociedade haitiana e conhecida por seu caráter imprevisível. "Foi uma fala muito moderada e, até agora, parece que ele não quer prejudicar as eleições", afirmou o embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman.

Segundo o batalhão brasileiro, não houve incidentes por causa do retorno do presidente.

Ambos os candidatos que definirão, no domingo, o futuro político do Haiti foram no passado duros críticos de Aristide. Em entrevista ao Estado, o cantor Michel Martelly tentou desconversar ao ser questionado sobre seu embate com Aristide, dizendo que sua oposição não era ao ex-presidente, "mas contra suas políticas". Mirlande Manigat, ex-professora septuagenária que enfrenta Martelly, enfatizou que Aristide "tem todo direito de voltar ao seu país". Ela disse ainda que cobrará a promessa do líder do Lavalas de ajudar na educação do país.

PARA LEMBRAR

Baby Doc retornou ao país em janeiro

Assim como Jean-Bertrand Aristide, o ex-ditador haitiano Jean-Claude Duvalier - conhecido como "Baby Doc" - retornou ao Haiti em janeiro, depois de 25 anos longe do país, logo após as eleições do primeiro turno. Na época, a Anistia Internacional disse que o governo haitiano investigaria os crimes contra a humanidade cometidos por Duvalier e a Justiça do país chegou a processar Baby Doc por corrupção, desvio de fundos públicos e associação ilícita durante os 15 anos em que esteve no poder. Duvalier assumiu o poder aos 19 anos, após a morte de seu pai, François, também conhecido como "Papa Doc".

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