Arizona divide-se sobre imigração

Governadora acredita que conta com o apoio da população para lei que criminaliza imigrantes ilegais

, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2010 | 00h00

Grant Woods, o ex-procurador-geral do Estado, passou mais de uma hora ao telefone com a governadora Jan Brewer, uma colega republicana que estava ruminando sobre a lei sobre imigração mais dura do país.

Woods recordou que a governadora ouviu pacientemente enquanto ele enumerava seus argumentos contra a lei: que ela daria um poder excessivo à polícia local para deter pessoas meramente suspeitas de serem imigrantes ilegais e favorecer uma definição de perfil com recorte racial; que algumas polícias locais têm sido abusivas com imigrantes; e que a lei poderia levar o Estado a dispendiosas batalhas judiciais.

Ao desligar, Woods sabia que havia perdido o caso. "Ela realmente acha que a maioria da população do Arizona apoia uma atitude de resolver o problema sem se ligar para a Constituição", disse ele. Fechar numa posição - por vezes confundindo membros de seu próprio partido - sem se preocupar com as consequências é algo que define o estilo de Jan desde que ela inesperadamente saltou da secretária de Estado do Arizona a governadora há 15 meses quando Janet Napolitano, uma democrata, deixou o governo para assumir o Departamento de Segurança Interna.

Para o público, Jan, de 65 anos, é uma mulher sorridente, afável, muito bronzeada, "tipo líder de torcida". Ela pode se atrapalhar e fazer caretas em entrevistas coletivas à imprensa, mas realmente gosta de apertar mãos de eleitores.

Ela é uma calculista política meticulosa que pode não captar os pontos mais sutis da política - os adversários se perguntam se ela é controlada por consultores - mas se preocupa com detalhes como a roupa que os voluntários de campanha estão usando e gosta de provar que os vacilantes estão errados.

Até agora, ela raramente provocou controvérsias - seus apoiadores tiveram dificuldade para nomear alguma coisa de dar manchete que ela tenha feito antes de se tornar governadora, apesar de ter passado mais de 25 anos no serviço público.

E os adversários especulam se o seu círculo de assessores tem uma influência excessiva, notando que ela jamais havia sido passional sobre o controle da imigração até ficar claro que ia disputar uma eleição.

Ela nem sequer mencionou fronteira ou imigração em seu discurso de posse em janeiro de 2009, que se concentrou diretamente no maior problema em suas mãos, a economia em colapso e um orçamento estadual em frangalhos.

Mas Jan, em seu curto mandato, já pode ser lembrada por abalar a ordem política antes mesmo de sua decisão sobre a lei de imigração. Primeiro, para tentar fechar um déficit orçamentário de US$ 2,6 bilhões e evitar cortes pesados, ela chocou e enfureceu a ala conservadora que a havia sustentado aprovando um aumento de 1% no imposto estadual sobre circulação de mercadorias.

Chuck Coughlin, um consultor político que trabalhou na equipe de transição da governadora, lembrou como Jan, ao analisar o aumento de imposto no ano passado, gastou 20 minutos de uma reunião explicando como ela não poderia engolir os esperados cortes profundos na educação. "Ela sabia que o imposto era a única opção na mesa", disse Coughlin. "Eu lhe disse que ela não teria amigos, que nem mesmo os democratas a ajudariam porque queriam vê-la arder na fogueira. Mas o fez", afirmou. A proposta, Proposition 100, será submetida aos eleitores em 18 de maio.

Depois, o que é considerado a lei sobre fiscalização da imigração mais dura do país, permitindo que a polícia local detenha e verifique os papéis de imigração de não cidadãos e que torna um crime estadual não possuí-los, tramitará no Legislativo.

Legisladores disseram que fazia tempo que Jan, que se prepara para disputar um mandato completo, estava preparada para assinar uma lei dessas, e que todos seus adversários mais próximos na primária a aprovam. Mas, membros de seu gabinete discutiram demoradamente com o senador Russell Pearce, um republicano que fez da expulsão de imigrantes ilegais uma paixão. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM LOS ANGELES

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