Arma coberta de Legos para se parecer com um brinquedo gera revolta nos EUA

Empresa afirma que objetivo era 'quebrar retórica do pessoal anti-armas' e 'chamar a atenção para o fato de que os esportes de tiro são super divertidos'; milhares de crianças americanas atiram acidentalmente em si mesmas ou em outras pessoas todos os anos

John Woodrow Cox, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Há cerca de uma semana, uma empresa em Utah que faz modificações personalizadas em armas de fogo lançou o que descreveu como um novo produto de diversão: um kit que envolve revólveres Glock em blocos de Lego vermelhos, amarelos e azuis, remodelando armas letais para parecerem exatamente com brinquedos infantis.

“Construímos armas com blocos nos últimos 30 anos e queríamos inverter o roteiro para irritar a mamãe", escreveu a empresa Culper Precision, sediada em Provo, em seu site. O texto continua argumentando que a defesa pessoal é um direito concedido por Deus e que a posse de armas é protegida pela Constituição antes de chegar ao seu principal objetivo: a venda da “BLOCK19”, como foi nomeada a arma customizada, por US$ 549 a US$ 765 (R$ 2.832 a R$ 3.947, aproximadamente), dependendo dos detalhes.

“Há uma satisfação que SÓ pode ser encontrada nos esportes de tiro e esta é apenas uma pequena maneira de quebrar o retórica do pessoal anti-armas e chamar a atenção para o fato de que os esportes de tiro são SUPER DIVERTIDOS!”, afirma o site, em uma bravata que provaria ser de curta duração. "Aqui está a coisa. As armas são divertidas. Tiro é diversão, 30 rodadas totalmente automáticas é divertido.”

O que não é divertido, e não foi abordado na página de vendas da empresa, é a realidade em que milhares de crianças involuntariamente atiram em si mesmas ou em outras pessoas todos os anos porque encontram uma arma e puxam o gatilho.

A personalização da Culper Precision's chegou em um momento em que o problema só está piorando nos EUA e as vendas de armas estão disparando.

Quando a notícia do novo produto se espalhou pela internet no último fim de semana, a ideia pareceu a muitas pessoas tão profundamente equivocada que, para elas, inevitavelmente custaria a vida de crianças.

Quando Kristin Song, cujo filho de 15 anos morreu em 2018 após atirar acidentalmente em si mesmo, viu pela primeira vez uma imagem da arma personalizada, ela presumiu que era uma piada, até perceber que não era. “Como isso é legal?” perguntou Song, que lutou para aprovar uma legislação que exige que os proprietários de armas as tranquem se uma criança puder ter acesso a elas.

Quando Shannon Watts, fundadora da Moms Demand Action (Mães Exigem Ação, na tradução livre), viu a imagem pela primeira vez da arma, ela pensou que aquilo era doentio e crianças morreriam. “Proprietários de armas responsáveis deveriam ficar chocados com isso”, disse ela. Ao que parece, alguns deles ficaram.

Na seção de comentários de um blog sobre armas que apresentava uma entrevista com o presidente da empresa, o argumento foi mencionado. “Esta, se real, é a modificação de arma mais irresponsável que eu vi em muito tempo. Argumento perfeito para o pessoal de ‘Everytown for Gun Safety’. Não ajuda em nada", escreveu um usuário na quinta-feira.“O ponto principal é que é claramente uma má ideia fazer uma arma mortal parecer um brinquedo de criança. Eu não pretendo ser crítico, mas honestamente me esforço para entender como/por que alguém poderia achar isso divertido, para dizer o mínimo”, escreveu outro. “Nada diz (mais) que você é estúpido do que fazer sua arma real parecer um brinquedo”, escreveu um terceiro. "Essa é a ideia mais idiota que eu já vi."

Estúpido, sim, mas legal, pelo menos na maior parte do país, disse David Pucino, advogado do Giffords Law Center. Embora a lei federal proíba que brinquedos sejam fabricados para se parecerem com armas, nenhuma lei proíbe que armas sejam feitas para se parecer com brinquedos. Pucino observou que o Estado de Nova York proíbe as pessoas de disfarçarem armas de fogo de outra coisa, o que poderia tornar a Glock com partes de  Lego ilegal lá, mas duvida que outros Estados tenham regulamentos semelhantes.

Em 2016, uma loja do Texas revestiu revólveres com a imagem de Hello Kitty até que a empresa proprietária da marca exigiu que ela parasse (a loja, no entanto, ainda adorna pistolas com outros designs, incluindo a bandeira confederada, de acordo com seu site).

Em Utah, o presidente da Culper Precision, Brandon Scott, foi cordial, mas decidido em suas respostas à minoria de usuários que fizeram comentários chamando a BLOCK19 de uma má idéia. Scott afirmou que o objetivo do projeto era expor as pessoas à diversão de atirar, um aspecto das armas de fogo que, segundo ele, a mídia e os ativistas pelo controle de armas muitas vezes esquecem porque estão muito focados nas dezenas de milhares de pessoas que são mortas por elas.

Em vez disso, ele estava realizando uma fantasia de infância para seus clientes adultos, de como a personalização imitava as "armas de mentira" que as pessoas faziam "com os Legos que ganhava do Papai Noel".

Scott disse ao The Washington Post que, antes de anunciar sua ideia, considerou que as crianças poderiam pensar que armas alteradas fossem brinquedos, mas isso não o impediu de levar o projeto adiante.

Ele e seus três filhos brincam com blocos de Lego e, em sua casa, ele mantém todas as suas armas trancadas, algo que ele espera que todos os outros proprietários de armas façam também - uma expectativa dissociada da realidade.

Em 2015, até 4,6 milhões de crianças viviam em casas com pelo menos uma arma de fogo carregada e desbloqueada, um número que provavelmente aumentou durante a onda de compra de armas no país nos últimos 16 meses.

Se o filho de um de seus clientes encontrar uma arma modificada com Lego e atirar em si mesmo com ela, Scott disse que isso seria culpa do cliente, não dele. E o que deve acontecer com esse cliente? "Então, vamos ver. Eu sei que em alguns lugares existem leis para negligência como essa”, disse Scott.

Mas ele acrescentou que não acredita que um adulto que permite que uma criança tenha acesso a uma arma que parece um brinquedo - resultando na morte da criança - deva ser responsabilizado criminalmente. A razão, disse Scott, é porque ele não quer que o governo regule o "bom senso".

“Sabe, a dor e a angústia causadas pela perda de um filho seriam um cenário bastante intenso”, disse ele, sugerindo que já seria punição suficiente. E se fosse o filho de um vizinho que foi morto a tiros em vez disso? “O vizinho pode obviamente processar”, disse ele.

Scott insistiu que as armas nos EUA são injustamente difamadas. “Há muitos esportes nos Estados Unidos que são, na minha opinião, muito mais perigosos do que armas de fogo”, disse Scott. “E, francamente, matam mais pessoas anualmente.”

Quando questionado sobre um exemplo, ele apontou para o motociclismo. “Seria um grande problema”, disse ele, embora as armas tenham matado pelo menos oito vezes mais pessoas em 2020 do que o número que morrem em acidentes de motocicleta durante um ano médio.

No final das contas, Scott admitiu que criou o design na esperança de que ele iniciasse uma conversa sobre a alegria de atirar, uma esperança que teve um fim abrupto esta semana.

Antes de terminar sua entrevista com o Post na segunda-feira, ele disse que recebeu um e-mail da Lego, dizendo que foi questionada sobre seu design personalizado de arma por um repórter e queria um comentário da empresa.

Embora Scott tenha tido o cuidado de não mencionar a Lego pelo nome em seu site, a empresa ficou descontente e lhe enviou uma carta para parar a customização.

Um advogado, disse ele, afirmou que a gigante dos brinquedos poderia abrir um processo contra sua empresa se ele continuasse oferecendo a BLOCK19.

Scott, que não revelou exatamente quantas já havia vendido, mas disse que eram menos de 20, decidiu obedecer.

A Lego, disse ele, foi educada, mas direta em suas demandas. “Eles tiveram uma reação semelhante à sua”, disse ele. “E foi como: 'É sensato fazer uma arma parecer um brinquedo?'". 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.