AP Photo/Francois Mori
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Armadilha diplomática

Donald Trump e Emmanuel Macron anunciam vitórias, mas a realidade é teimosa

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2019 | 05h00

Donald Trump e Emmanuel Macron se amam. Quando estão em público, eles se beijam. Em seguida, Trump se apressa em esquecer os carinhos e abraços com os quais ele cobriu o francês e o ataca com um canhão.

Eles têm muitos pontos em comum. Eles adoram a diplomacia. Como não têm qualquer experiência política, eles se atiram, irrefletidamente, nos mesmos becos sem saída. Orgulhosos demais, os dois sentem-se superiores ao restante do mundo e estão convencidos de que será o suficiente aparecerem para que os problemas se dissipem. Eles anunciam suas vitórias, mas a realidade é teimosa. Em geral, ela rejeita dobrar-se aos desejos do americano ou do francês.

Foi o que acabou de acontecer com Trump no caso do Afeganistão. Ele ia partir para resolver um problema persistente no qual todos os presidentes americanos, até o sutil Obama, foram derrotados. O todo-poderoso Trump teve de anunciar que as negociações com o Taleban foram categoricamente interrompidas.

Este é um revés humilhante para Trump: ele sonhava em finalmente secar o atoleiro no qual os soldados americanos se debatem e morrem há 18 anos para colocar de joelhos o Taleban e a Al-Qaeda, que cometeram em Nova York, a carnificina de 11 de setembro de 2001.

Por que essa mudança completa de opinião? Por causa dos próprios taleban, que não hesitaram em fazer uma chacina em Cabul, no mesmo dia em que o embaixador americano anunciou na TV afegã um acordo de princípios entre os EUA e o Taleban: 16 mortos em um complexo fortificado erguido em Cabul para estrangeiros.

O golpe foi terrível para Trump. A assinatura seria feita em Camp David, entre um líder taleban e o presidente afegão, Ahraf Ghani. Todas essas belas celebrações e símbolos do edifício desmoronam antes mesmo da construção, para satisfação, na realidade, de muitos outros membros notáveis do mesmo partido do presidente dos Estados Unidos, os republicanos.

Os contratempos dos franceses são diferentes, mesmo que bebam da mesma fonte: muita autoconfiança, alvoroço e esse desejo de resultados rápidos e espetaculares! No recente G-7 realizado em Biarritz, Macron desferiu dois golpes ousados que todo mundo cumprimentou (até mesmo eu) e secretamente chamou o ministro das Relações Exteriores do Irã a fim de abrir caminho para reuniões diretas entre o Irã e seu inimigo favorito, os Estados Unidos de Trump.

Desde então, as negociações prosseguem entre Paris e Teerã. Mas, no lado iraniano, isso faz aumentar os riscos: o presidente iraniano excluiu imediatamente, em princípio, qualquer discussão com os Estados Unidos. Mais perigoso: ele ameaçou reduzir ainda mais os compromissos assumidos pela república islâmica no campo nuclear, previstos no Acordo de Viena de julho de 2015.

Rohani disse que os contra-ataques iranianos poderiam ser lançados rapidamente. Portanto, a esperança que havia surgido em Biarritz enfrenta ventos contrários. É certo que este não é um fracasso humilhante como o sofrido por Trump no Afeganistão, mas o lembrete de que uma diplomacia está acontecendo nos bastidores, secretamente e com cautela.

Há outra ação empreendida por Macron, que se depara com algumas objeções: a retomada das relações da França com a Rússia. Macron, como Trump, acha absurdo continuar aborrecendo a Rússia desde 2014 para puni-la pela anexação da Crimeia. Ele acredita, com bom senso e realismo, que é hora de voltar às relações pacíficas. É por isso que Macron recebeu durante suas férias, no forte de Brégançon, perto de Nice, o presidente russo.

Na Europa, no entanto, as resistências são fortes. Até a Alemanha, a querida aliada da França, fez careta – em todos os lugares do poder alemão, o desejo de Macron é criticado. Até a querida Angela Merkel está relutante.

E há mais críticas além de Merkel. São os países do Norte que vivem nos arredores da Rússia e receiam que esta tente operações no Norte, comparáveis às que foram realizadas no Sul, na Crimeia. As contusões da era soviética ainda são profundas na memória dos países bálticos.

Esse é o paradoxo: Macron está defendendo suas ideias e os maiores obstáculos que existem entre os que se opõem a eles vêm da União Europeia na qual Macron sonhava, ainda há dois anos, em torná-la mais forte. Ironia da vida política. François Mitterrand, que era um excelente presidente socialista, disse: “Lembre-se, a política é uma profissão. Uma profissão, eu vos digo”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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