Armamento garante capacidade de 'destruição mútua'

Doutrina de dissuasão é a mesma utilizada por Estados Unidos e União Soviética no período da Guerra Fria

HAIFA, ISRAEL, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2012 | 03h01

Armados com mísseis nucleares, os submarinos são um alerta para qualquer inimigo. Eles sinalizam que o Estado judaico não ficaria totalmente indefeso se fosse alvo de um ataque nuclear, podendo contra-atacar com uma arma definitiva de retaliação.

Os submarinos são "uma maneira de garantir que o inimigo não se sentirá tentado a arriscar um ataque preventivo com armas não convencionais acreditando que não sofrerá as consequências", diz o almirante israelense Avraham Botzer.

Nesta versão do olho por olho, conhecida como capacidade de destruição mútua, a morte de centenas de milhares de pessoas é vingada com um número igualmente alto de baixas. Trata-se de uma estratégia de dissuasão praticada por EUA e União Soviética durante a Guerra Fria, quando parte do arsenal nuclear destes países era sempre mantida em submarinos. Para Israel, país do tamanho do Estado de Sergipe, que poderia ser eliminado por um ataque nuclear, garantir a possibilidade de resposta é algo vital para a própria existência. Ao mesmo tempo, seu arsenal nuclear leva países como Irã, Síria e Arábia Saudita a temerem e invejarem a capacidade nuclear israelense, bem como à ideia de construir seus próprios arsenais atômicos.

Isso torna a questão de sua responsabilidade política global ainda mais relevante para a Alemanha. Será que a Alemanha, país dos perpetradores, deve poder auxiliar Israel, país das vítimas, no desenvolvimento de um arsenal nuclear capaz de extinguir centenas de milhares de vidas humanas? Estaria Berlim promovendo irresponsavelmente uma corrida armamentista no Oriente Médio?

Ou será que a Alemanha deveria assumir uma responsabilidade que, emanando de sua obrigação histórica decorrente dos crimes do nazismo, se tornou "parte das razões de Estado alemãs", como disse a chanceler Angela Merkel em discurso à Knesset, o Parlamento israelense, em março de 2008? "Isso significa que para mim, enquanto chanceler alemã, a segurança de Israel jamais será negociável", disse Merkel aos legisladores.

Os perigos de tal solidariedade incondicional foram comentados pelo novo presidente alemão, Joachim Gauck, durante sua primeira visita oficial a Jerusalém na última terça-feira: "Não quero imaginar cada uma das situações que poderiam meter a chanceler em grande encrenca, em se tratando de implementar politicamente a declaração dela a respeito da segurança de Israel fazer parte das razões de Estado alemãs".

"Supus desde o início que os submarinos eram destinados às capacidades nucleares", disse o diretor da equipe de planejamento do ministério alemão da Defesa no fim dos anos 80, Hans Rühle. O ex-secretário de Estado do Ministério da Defesa, Lothar Rühl, diz nunca ter duvidado que "Israel mantinha armas nucleares dentro das embarcações". E o diretor de compras de armamentos do Ministério da Defesa durante a fase mais importante do programa, Wolfgang Ruppelt, admite que lhe pareceu imediatamente claro que os israelenses precisavam dos submarinos como "portadores de armas do tipo que um país pequeno como Israel não poderia manter em terra".

Falando sob anonimato, representantes do alto escalão do governo alemão foram ainda mais claros. "Desde o início, as embarcações foram utilizadas principalmente para o propósito da capacidade nuclear", diz um funcionário do ministério. / CONDENSADO DE DER SPIEGEL. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.