Armar a Ucrânia ou se render

Putin deu a adversários duas opões: enfrentá-lo ou admitir a derrota e o declínio da Otan

Ben Judah/The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2014 | 02h04

Rússia e Ucrânia estão em guerra. Pelo menos 2,2 mil pessoas já morreram no conflito; milhares ainda talvez tenham de morrer. As potências ocidentais - Estados Unidos, Europa e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) - não dispõem de boas opções no momento, mas precisarão agir. O presidente Vladimir Putin deixou duas péssimas alternativas, repletas de riscos: ou armamos a Ucrânia, ou forçamos Kiev a se render e deixamos que Putin fique com todos os territórios que quiser numa zona que ele ocupou.

É uma escolha difícil e Putin não é racional. Um líder racional teria ficado zonzo com o custo das sanções ocidentais. A economia da Rússia está sendo profundamente afetada pela crise do crédito, pela fuga de capitais, pela espiral inflacionária e pela incipiente recessão. Isso prejudicará a popularidade de Putin em seu país. Mas não foi capaz de dissuadi-lo.

A Ucrânia não tem condições de ganhar essa guerra. Putin deixou claro que seu Exército aniquilará as forças de Kiev caso tentem libertar Donetsk e Luhansk. O Ocidente precisa ser honesto com a Ucrânia. Falamos como se este país fosse um dos nossos.

A Ucrânia está sendo destruída. Sua economia está em frangalhos. Os ucranianos refugiam-se no nacionalismo romântico, preparando-se para um combate de guerrilha. Os custos aumentam e os sonhos liberais da revolução vão se afogando na fúria chauvinista e na histeria da guerra.

Mais alguns meses sem uma ajuda e a Ucrânia terá perdido as forças combativas do seu Exército. Será impossível que os liberais ucranianos pró-Europa sobrevivam ao contragolpe. Os extremista de direita invadirão o Parlamento de Kiev fortalecidos pelas mortes dos soldados ucranianos cujos caixões estão chegando do front. A Ucrânia se tornará uma zona de conflito devastada: uma Síria europeia ou uma horrível Bósnia amplificada.

Não podemos deixar que isso aconteça. Se acreditamos que a Ucrânia um dia se tornará membro da União Europeia e da Otan, devemos armá-la. Devemos encarar o fato de que os custos de uma expansão dessas duas organizações significaram uma guerra por procuração com a Rússia - e, então, combater nessa guerra. Depois de reavivar os momentos mais controvertidos da Guerra Fria, devemos enfrentar as consequências de ter encorajado a democratização na Europa Oriental.

Essa lógica exige que enviemos assessores militares ocidentais a Kiev e proporcionemos pleno apoio em termos de informações e suporte por satélite aos ucranianos. Teremos de enviar armas, tanques, drones e toneladas de kits de socorro médico. Teremos até de estar prontos para enviar tropas da Otan se os tanques russos se dirigirem para a Crimeia.

Não importa se isso acarretará enormes riscos. A Rússia lançará todo o seu poderio contra a Ucrânia. Forças especiais americanas e britânicas deveriam ser despachadas para proteger os aeroportos de Kiev e Odessa. Mas Putin não se deixará intimidar: as forças russas poderão cercá-las, como aconteceu na Guerra do Kosovo, em 1999.

Entretanto, se não estivermos dispostos a assumir esses riscos, teremos de obrigar os ucranianos a abandonar sua ilusão fatal. Caberá a nós impedir que a Rússia massacre em vão os recrutas ucranianos. Isso só será possível se o Ocidente obrigar a Ucrânia a render-se. A Ucrânia depende totalmente da ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), ou seja, do dinheiro ocidental. Devemos dizer a Kiev que aceite que a Rússia criou outra Ossétia do Sul no leste - ou fecharemos a torneira do dinheiro. Como consolo, explicaremos que ser uma outra Geórgia não é a pior coisa do mundo.

Dessa maneira, poderemos economizar milhares de vidas, mas seria uma esmagadora derrota para o Ocidente. A Rússia se restauraria como império - uma nova União Soviética mais uma vez sob a influência do Kremlin. Na realidade, o Ocidente tem de admitir que a Rússia poderá invadir ou anexar qualquer um desses territórios como bem entender. E, nessas terras, os pacificadores se multiplicarão e a democracia morrerá.

A Rússia terá triunfado sobre a ordem mundial imposta pelo Ocidente depois que a União Soviética perdeu a Guerra Fria. O que significará a destruição da capacidade de dissuasão geopolítica americana. Os inimigos dos EUA, da China ao Irã, considerarão isso um convite a estabelecer suas próprias esferas de influência em meio aos escombros.

Por enquanto, não existe uma saída fácil. Mas não devemos permitir que milhares de ucranianos morram somente porque hesitamos. Se não estamos dispostos a travar uma nova Guerra Fria com a Rússia em razão da independência ucraniana, devemos ser honestos com eles. Mas se obrigarmos a Ucrânia a se render, em vez de sacrificar vidas numa luta que não pretendemos enfrentar, teremos de aceitar que será uma rendição também para a Otan, para a Europa, para a democracia liberal e para a liderança global dos EUA. Eis a escolha com que nos defrontamos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Ben Judah é autor do livro 'Fragile Empire: How Russia Fell In and Out of Love with Vladimir Putin'. 

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