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Armar os rebeldes sírios?

Dois anos de horror na Síria, 70 mil mortos e 1 milhão de refugiados. E o presidente Bashar Assad, contra o qual se levantou o povo sírio há 24 meses, continua a desafiar uma opinião pública horrorizada pelo cinismo dos açougueiros de Damasco. Isso não quer dizer que a Europa não fez nada para pôr fim à carnificina. Em intervalos regulares, Washington, Paris, Berlim e Roma suspiram. Às vezes, dizem: "É uma vergonha o que ocorre na Síria".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2013 | 02h07

Agora, porém, dois países europeus se aborreceram: França e Grã-Bretanha. Eles pediram que a União Europeia levantasse o embargo de armas aos rebeldes. Assim, enquanto o tirano Assad é reabastecido por Rússia e Irã, os rebeldes estão submetidos ao bloqueio. O presidente francês, François Hollande, e o premiê britânico, David Cameron, informaram que, se o embargo não for levantado, França e Grã-Bretanha o ignorarão e entregarão armas, sobretudo mísseis terra-ar.

Trata-se de uma decisão audaciosa. Com o tempo, a rebelião síria foi inundada por guerrilheiros de todo o mundo árabe e seguidores do islamismo radical. Em suma, Paris pretende armar na Síria homens que são primos ideológicos dos terroristas contra os quais a França enviou seu Exército ao Mali. Hollande não ignora isso, mas estima que não se pode deixar Assad bombardear suas próprias cidades e assassinar seu povo sem agir.

Assim, o presidente francês renova seus laços calorosos com os britânicos no momento em que o clima entre Londres e Paris era glacial. Essa reaproximação não é inocente. Alguns meses atrás, a dupla França e Alemanha, que conduzia a Europa há 50 anos, se desentendeu e perdeu fôlego. O motor franco-alemão entrou em pane. Em seu lugar, a chanceler alemã, Angela Merkel, entregou-se aos primeiros testes de um novo motor anglo-alemão. Mas sobre a Síria está se formando uma nova dupla: França e Grã-Bretanha. A Alemanha, que até então sempre foi hostil ao envio de armas aos rebeldes sírios, sente-se isolada. Merkel não deve ficar contente.

Hollande é um sujeito estranho. Ninguém é menos belicoso, menos militar do que esse tipo gorducho, hesitante, escrupuloso, que é apresentado sempre com traços de um homem não muito corajoso, um "político à antiga", mais à vontade num gabinete ministerial do que de uniforme de batalha.

Por paradoxo ou ironia da história, porém, esse civil absoluto conhece seus mais belos sucessos como comandante de guerra. A decisão que ele acabou de tomar para a Síria se inscreve nessa análise. Enquanto todos os líderes ocidentais, exceto Cameron, tapam seus ouvidos para não ouvir os gritos dos rebeldes, Hollande e Cameron decidem agir.

Há algumas semanas, Hollande já havia jogado a carta militar quando decidiu enviar o Exército francês ao Mali para impedir que jihadistas estabelecessem um "Estado terrorista" no coração da África. A ação transformou e amplificou a imagem internacional de Hollande e da França. Nos jornais do mundo inteiro, editorialistas teceram elogios ao "guerreiro". Os jornais americanos, em particular, descobriram, de repente, uma França inédita, resoluta, militar.

Caso de amor. "Vive la France", escreveu a revista Newsweek como título de um longo artigo enaltecendo Hollande, no qual se diz que "a França com seus aviões, seus helicópteros e seus paraquedistas é a única nação da Europa capaz de lutar contra os jihadistas no território malinês". O New York Times não deixou por menos. "Como nação militar, a França não tardará em destronar a Grã-Bretanha."

Na Espanha, a reação foi de entusiasmo: "A França é o gendarme do Ocidente", disse o La Vanguardia, de Barcelona. "Ela encontra seu status de capital da Europa mediterrânea". O La Razón, de Madri, celebrou "a nova grandeza" da França.

Mesmo na Índia, os trajes de guerreiro vestidos por Hollande são admirados. O jornal India Today, de Nova Délhi, não economizou as palavras: "Bye-bye, Londres. Hello, Paris!", escreveu. "As relações da Índia com a França estão voltadas para o futuro, enquanto as existentes com a Grã-Bretanha estão orientadas para o passado."

Esses aplausos são particularmente surpreendentes porque, na própria França, a figura de Hollande é, ao contrário, mais discutida e mais criticada do que nunca. No momento em que os Estados Unidos descobrem, de repente, virtudes insuspeitadas na França, os franceses são, cada vez mais, hostis a Hollande. Seu índice de popularidade caiu. Apenas 30% dos franceses confiam nele atualmente.

De maneira bizarra, agora que os grandes jornais estrangeiros descobriram que o terno de três peças de Hollande dissimula, na verdade, um uniforme militar repleto de medalhas e ornado com fuzis, lança-granadas, aviões e foguetes, os franceses insistem em ver seu presidente como um burguês acanhado, melhor equipado para a retirada ou para a derrota do que para o ataque ou para a vitória. Eles reconhecem, contudo, que ele é bastante afável e não faria mal a uma mosca. É esse, aliás, o sentido do apelido que seus ministros e adversários lhe deram: "Bonachão". / Tradução de Celso Paciornik

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris.
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