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Armas, desigualdade e racismo

A violência racial não é novidade nos EUA. A novidade é que esses crimes têm sido capturados por aparelhos de celular e disseminado nas redes

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2016 | 02h00

Jovens negros do sexo masculino correm nove vezes mais risco de serem assassinados por policiais nos EUA do que o restante da população e cinco vezes mais do que brancos da mesma faixa etária. Embora representem 2% da população, negros com idades entre 15 e 34 anos foram 15% dos 1.134 mortos por policiais em 2015, segundo o jornal The Guardian, que desde o ano passado documenta ações da polícia americana com mortos, após seus correspondentes constatarem que o governo federal não mantinha base de dados única desses crimes.

Uma série de casos recentes de violência policial contra negros nos EUA – os últimos, em Minnesota e Louisiana – tem levado milhares de manifestantes às ruas. Na quinta-feira, um desses protestos, em Dallas, terminou com a morte de cinco policiais.

A violência racial não é novidade nos EUA. A novidade é que esses crimes têm sido capturados por aparelhos de celular e disseminado nas redes. Os números e os vídeos que se tornaram virais na internet não deixam dúvida da brutalidade da polícia. É fácil culpá-los e ver no episódio de ontem uma reação violenta a isso. 

Que a polícia usa força excessiva, está claro. Que essa força é empregada desproporcionalmente em jovens negros, também. Ocorre que o comportamento da polícia nos EUA (ou no Brasil) e do atirador é apenas um retrato da sociedade. Não é causa, é consequência. Por trás desse episódio e dos recentes casos de morte de negros por policiais, está uma sociedade violenta, que continua ignorando o controle de armas; desigual, onde lutas políticas sem fim são travadas cada vez que se tenta aprovar uma nova política social como a reforma da saúde (ou Obamacare); e ainda racista. Da intersecção dessas três forças resulta a fórmula letal da violência. 

Uma sociedade que tem 300 milhões de armas em circulação – número maior que a população – não pode se espantar com ataques a tiros como o que matou os cinco policiais na quinta-feira, tampouco com a ação violenta da polícia, quando a própria população se arma com a justificativa de se proteger, legitimando a luta armada.

Os EUA têm a maior taxa de homicídios entre os países desenvolvidos – 3 vezes mais do que na França, 4 vezes mais do que na Grã-Bretanha, 5 vezes mais do que na Alemanha e 13 vezes mais do que no Japão. A menor taxa de homicídio nos EUA desde o fim da 2.ª Guerra é maior do que a maior taxa de homicídio em toda a Europa no mesmo período, segundo Lisa L. Miller, professora da Universidade Oxford e autora de Os Perigos do Federalismo: Raça, Pobreza e Políticas de Controle do Crime (em tradução livre), publicado em 2008 pela Oxford University Press.

Adicione a essa tragédia o legado da escravidão, seguida por uma política de segregação racial que perdurou até os anos 60 e você terá o cenário atual da violência nos EUA. Um cenário em que os negros correm duas vezes mais risco de morrer por arma de fogo do que brancos, segundo o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. 

Na faixa etária de 20 a 29 anos, o índice de negros assassinados é de 89 para cada 100 mil habitantes – similar ao da população de Honduras, o país com maior taxa de homicídios no mundo.

Os conservadores argumentam que os negros americanos são mortos pelos próprios negros. Mas isso é apenas mais um flagrante de uma sociedade que arma seus cidadãos e os segrega em guetos. Negros americanos ainda têm ao menos três vezes mais probabilidade de viver em pobreza, não terminar o ensino médio, ficar desempregados e acabar em uma prisão. 

Compactuamos com as causas da violência – o acesso fácil a armas, a desigualdade social e a discriminação racial – e reagimos com espanto às consequências. Quando um jovem de 21 anos entrou armado em uma igreja de Charleston, Carolina do Sul, e matou nove negros, em junho, o reverendo William Barber declarou: “o responsável foi preso, mas os assassinos continuam à solta”. Lá e aqui, os assassinos somos nós. 

*ADRIANA CARRANCA. ESCREVE AOS SÁBADOS 

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