Armas, política e saúde pública nos Estados Unidos

CENÁRIO: Joe Nocera / NYT

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2014 | 02h00

Mike Weisser é meu comerciante de armas favorito. Há muito tempo proprietário da loja Ware Gun Shop, em Ware, Massachusetts, Weisser, de 70 anos, estima que já vendeu mais de 40 mil armas no atacado e no varejo. E tem ainda uma pequena escola onde ministra cursos para o manejo seguro de armas, conforme Massachusetts exige de todas as pessoas que adquirem uma.

"Adoro armas", ele me disse imperturbável quando conversamos recentemente. E acrescentou com uma risadinha: "Comprei uma ontem mesmo". Ele está convencido de que o país precisa de uma nova estratégia em relação às armas e à violência das armas - uma estratégia que tenha base mais em dados e enfatize o aspecto da saúde pública. Com o pseudônimo de "Mike the Gun Guy", Weisser escreve um blog no Huffington Post em que expõe sua visão do problema. Ele é um das poucas pessoas que se preocupam com os suicídios, que correspondem a dois terços de todas as mortes pelas armas. De tempos em tempos, ele consulta os defensores do controle de armas, que considera muito passivos diante das táticas da Associação Nacional do Rifle (NRA, pelas iniciais em inglês).

Por outro lado é incansável em suas críticas à NRA. Ele não crê que a Segunda Emenda signifique que as pessoas deveriam poder carregar uma arma para onde quiserem. Em seus e-mails, ele inclui uma citação do romancista Walter Mosley: "Se você carrega uma arma, mais cedo ou mais tarde ela disparará". Um site chamado AmmoLand o definiu "basicamente como um agente duplo que trabalha para solapar a Segunda Emenda com seus artigos".

Entre tudo o que Weisser defende, a questão que mais o apaixona é a necessidade de os médicos participarem dos debates sobre a segurança das armas. Mais que isso, ele acredita que os médicos precisam falar sobre as armas no que se refere ao seu efeito sobre a saúde humana, tanto aos seus pacientes quanto ao público em geral. Na sua opinião, "os médicos permitiram que os excluíssem do debate sobre armas" na época da proibição de armas de assalto e outras restrições do gênero, aprovadas durante a presidência de Bill Clinton. "Quando houve os debates sobre o tabagismo, falou-se sempre da questão da saúde e os médicos tiveram uma função central", ele diz. "Mas o debate sobre armas ocorreu em torno de sua utilidade social mais do que dos aspectos relativos à saúde pública. E é exatamente dessa maneira que a NRA pretende que a questão seja enquadrada."

Portanto, embora não tenha formação médica (sua mulher é pediatra, observou), Weisser contribuiu para organizar uma importante conferência que deverá ocorrer no mês que vem no Massachusetts. Intitulada Atendimento dos pacientes de risco de violência por causa das armas: questões médicas, jurídicas e éticas, será a primeira a ser reconhecida pelo programa Continuing Medical Education sobre a violência pelas armas. Um dos objetivos, afirma Weisser, é ajudar os médicos dos prontos-socorros a identificar pacientes de risco - os que foram levados a um PS porque foram atacados por alguém ou ameaçaram se matar.

Segundo Shannon Frattaroli, do Johns Hopkins Center for Gun Policy and Research, uma importante questão é saber se os médicos podem intervir antes da Justiça criminal. "Será preciso esperar que um crime aconteça para saber se alguém está em risco?", pergunta. E acrescenta que o ambiente de uma clínica é um bom lugar para tratar da questão, porque os médicos em geral têm conversas íntimas com os pacientes.

David Hemenway, diretor do Harvard Injury Control Research Center, disse que os médicos frequentemente não têm como falar sobre armas com os pacientes. "Essa é uma das questões de que precisamos tratar", afirmou. Ele observou que Vivek Murthy, médico nomeado secretário da Saúde pelo presidente Barack Obama um ano atrás, não foi confirmado pelo Senado porque disse publicamente que a violência das armas é uma questão de saúde pública.

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