Armênios recordam um século de genocídio à espera de reconhecimento

Governo turco vê crescer pressão da comunidade internacional para que Ancara reconheça a atrocidade cometida durante a 1ª Guerra

RENATA TRANCHES , O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2015 | 02h05

Perto de celebrar o primeiro centenário do episódio que marcou a história e seu próprio destino, a Armênia projeta ao mundo sua maior tragédia na busca pelo reconhecimento e compreensão. O massacre de armênios praticado pelo Império Otomano durante a 1ª Guerra, descrito pela maioria dos historiadores como genocídio, completará cem anos na sexta-feira.

Durante esse período, a negação por parte da Turquia de que houve um genocídio tem sido um empecilho para a normalização das relações entre os dois países vizinhos e um impedimento à "busca por Justiça", como ressalta o povo armênio. Nos últimos anos, a pressão para mudar isso tem aumentado e ganhou força especialmente às vésperas do aniversário.

No domingo, o papa Francisco usou a palavra genocídio para descrever as mortes na Armênia sob o domínio Otomano, despertando a fúria no governo de Recep Tayyip Erdogan. "Eu condeno o papa e gostaria de alertá-lo para que não cometa erros parecidos", respondeu o presidente turco.

No entanto, a declaração do chefe da Igreja Católica foi muito mais que simbólica. "Isso é algo que chamamos de Justiça", afirmou ao Estado o embaixador armênio no Brasil, Ashot Galoyan. Ele está em São Paulo esta semana para participar das diversas celebrações oficiais na cidade pelo centenário.

"Ao fazer aquele pronunciamento, o papa mostrou que não seria pressionado pelo governo turco e enfrentou as ameaças de tentar controlá-lo e impedi-lo de usar a palavra 'genocídio'", disse à reportagem o renomado escritor e poeta armênio-americano Peter Balakian. Na mesma semana, o Parlamento Europeu, que reconhece o genocídio desde 1987, instou todos os 28 membros da União Europeia a fazer o mesmo.

Na sua opinião, entre todos os aspectos importantes relacionados a esse episódio, o principal deles é o fato de ter se tratado do "primeiro exemplo de um genocídio cometido na modernidade". Segundo o escritor, 1,5 milhão de uma população de 2,5 milhões foram mortos até 1923 - 1,2 milhão entre 1915 e 1916. Ele e o embaixador se citam os estudos do advogado polonês Raphael Lemkin (1900 - 1959) que desenvolveu o conceito de genocídio como um crime no direito internacional, em parte, com base no que aconteceu aos armênios e, em parte, com o holocausto de judeus, na 2ª. Guerra.

Durante a 1ª. Guerra, como explicou um artigo publicado pelo Brookings Institution (Washington), o governo otomano estava em processo de mover a população armênia para longe das partes orientais do império que faziam fronteira com seu inimigo, a Rússia. Em meio ao caos da guerra, os otomanos temiam que a Rússia estimulasse uma revolta entre os armênios cristãos contra o império para enfraquecê-lo enquanto combatia os aliados russos, os britânicos e franceses. O deslocamento forçado dos armênios, porém, foi acompanhado de violência inimaginável, como qualificou o texto.

"No caso armênio, o governo turco de 1915 usou burocracia moderna, legislação de governo, esquadrões móveis de extermínio, tecnologias avançadas para empregar uma ideologia nacionalista do pan-turquismo com o propósito de eliminar o grupo étnico alvo, no caso, cristãos armênios que viviam em suas terras históricas", lembra o escritor, autor de vários livros títulos sobre o massacre de armênios, como Black Dog of Fate. "Isso era novo. Nunca havia acontecido algo assim antes na história."

Balakian é também membro do Conselho Consultivo da Associação Internacional dos Acadêmicos em Genocídio, que há dez anos enviou uma carta aberta ao então premiê turco Erdogan dizendo que negar o genocídio era parte de uma "propaganda e esforço de absolver os culpados, culpar as vítimas e apagar o sentido ético da história".

Procurada pelo Estado, a Embaixada da Turquia, por meio de seu Consulado em São Paulo, afirmou que, em referência aos "eventos de 1915", o governo otomano promoveu relocações de armênicos como uma "precaução militar". "A perda de armênios foi imensa durante essa realocação em razão das epidemias, escassez de alimentos, condições climáticas, etc. o que a Turquia nunca hesitou em reconhecer", diz o texto enviado à reportagem.

Ancara afirmou, em sua explicação, que a oposição da Turquia é a que se assuma "a perspectiva histórica de um lado como verdade inegável e apresentar os trágicos eventos de 1915 como um 'genocídio' perpetrado por turcos contra armênios".

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