Reprodução/Facebook/Lourival Sant'Anna
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Arquitetura de um acordo

A paz definitiva não se alcança aniquilando o agressor, mas elevando, para ele, o custo do conflito, e, em seguida, ouvindo suas condições, acatando o que for possível

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2016 | 00h00

Em 1999, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) ocupavam a “zona desmilitarizada”, uma área de 42 mil km² no centro-sul do país, que o governo de Andrés Pastrana lhe havia concedido para negociar a paz. O Exército, a polícia e a Justiça se retiraram da área, um pouco maior que o território da Suíça, como condição para que o comando das Farc se concentrasse ali para o diálogo. 

Foi nesse santuário, na zona rural de San Vicente del Caguán, que o comandante Raúl Reyes me recebeu, cercado de guerrilheiros, e com um fuzil no colo. Na entrevista, Reyes admitiu que as Farc recebiam dinheiro do narcotráfico, extorquiam empresários e sequestravam os que não lhes pagavam, justificando que se tratava, em ambos os casos, de “impostos” cobrados por um “Estado” revolucionário. Ao falar do processo de paz, perguntei se eles estavam cansados de lutar, e ele replicou: “Estamos cansados de morrer”.

Entretanto, os comandantes humilharam Pastrana, não comparecendo a uma reunião marcada para o lançamento do processo de paz. Durante três anos, as Farc usaram a “zona desmilitarizada” como um Estado dentro do Estado, com justiça própria, como quartel-general para a venda de proteção ao narcotráfico, cativeiro de reféns e base para suas operações militares. Em 2002, depois dos sequestros de um avião e da senadora e candidata a presidente Ingrid Betancourt, Pastrana finalmente reconheceu o fracasso do processo de paz e reocupou a área. Naquele ano, Álvaro Uribe, cujo pai fora morto em 1983 numa tentativa de sequestro atribuída às Farc, elegeu-se presidente, e se lançou numa guerra total contra a guerrilha, com ajuda dos Estados Unidos.

Depois de dois mandatos de Uribe, José Manuel Santos, seu ministro da Defesa, elegeu-se presidente em 2010, com a missão de levar a luta até a derrota das Farc. A campanha militar empurrou os guerrilheiros para as montanhas, cruzando até mesmo as fronteiras com os vizinhos, em suas derrotas e recuos contínuos. O próprio Reyes foi morto em março de 2008, em bombardeio a um acampamento do lado equatoriano da fronteira. Manuel Marulanda, o Tirocerto, líder político, morreu dias depois, de ataque cardíaco. Jorge Briceño, o Mono Jojoy, chefe militar, foi morto em setembro de 2010, num ataque do Exército, pondo fim ao triunvirato que comandava as Farc. As linhas de suprimento das Farc foram cortadas, suas diversas frentes já não se comunicavam, o poder de fogo da guerrilha  se dissipou e o grupo se fragmentou em quadrilhas de sicários do narcotráfico.

Foi nesse contexto que o governo e as Farc começaram em 2012 a negociar secretamente em Havana o acordo de paz assinado na quarta-feira. As Farc se comprometeram a depor armas, a se desvincular do narcotráfico e a se engajar no jogo democrático, com a garantia de representação parlamentar nas duas próximas legislaturas. O governo prometeu fazer a reforma agrária. Apesar de extemporâneo, dada a nova realidade do agronegócio, isso é simbolicamente importante: foram a concentração de terras, a violência no campo e as más condições de vida dos camponeses que motivaram a criação das Farc, em 1964. 

Haverá uma justiça transitória para os crimes de ambos os lados, com penas atenuadas. Isso mortifica muitos colombianos. O Registro Único de Vítimas cataloga 7,7 milhões de pessoas afetadas direta ou indiretamente pelo conflito, num país de 48 milhões de habitantes. O anseio de punição pode levar os colombianos a rejeitar o acordo, no referendo de 2 de outubro. Uribe faz campanha contra o acordo, com a descabida —  mas provocativa — imagem de que “a Colômbia vai virar uma Venezuela”.

Seja como for, há dois aprendizados importantes. O primeiro é que não se vence uma guerra com discursos, mas com armas, sangue e determinação. Quando me deu a entrevista, Reyes não estava pronto para negociar de verdade, estava aproveitando o “processo de paz” para se reforçar militarmente. É preciso enfraquecer o inimigo antes de negociar com ele. Com sua inexperiência, e o aspecto cordial de sua cultura, o Brasil tem metido os pés pelas mãos. A abstenção brasileira na votação do Conselho de Segurança da ONU que aprovou a intervenção da Otan na Líbia, em 2011, foi um ultraje. Eu estava em Beghazi. Percorri os 25 km de blindados e caminhões carregados de foguetes que Muamar Kadafi despachara para aniquilar a cidade de 1 milhão de habitantes, e que foram destruídos a tempo pela aviação francesa. Seguiram-se a posição complacente frente à sanguinária ditadura síria e a proposta estapafúrdia de Dilma Rousseff na Assembleia Geral da ONU, em 2014, de “negociar” com o Estado Islâmico.

Por outro lado, como todo general sabe, não é a vitória militar que põe fim à guerra; é a negociação que se segue. Humberto de la Calle, negociador-chefe do governo, declarou ao firmar a paz: “Este acordo abre a porta para uma sociedade mais inclusiva”. É isso. A paz definitiva não se alcança aniquilando o agressor, mas elevando, para ele, o custo do conflito, e, em seguida, ouvindo suas condições, acatando o que for possível, mesmo que não seja plenamente justo, mas melhor do que a continuação da guerra. Plenitude não existe. A não ser nos cemitérios.

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