Arrogância e cobiça mudam imagem do Canadá

Obsessão do premiê Stephen Harper pela exploração do petróleo extraído de depósitos de betume faz com que o país deixe de ser o escoteiro global

É EDITOR DO JORNAL CANADENSE TYEE , ANDREW , NIKIFORUK, FOREIGN POLICY, É EDITOR DO JORNAL CANADENSE TYEE , ANDREW , NIKIFORUK, FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2013 | 02h10

Durante décadas, o mundo pensava no Canadá como o cordial vizinho dos EUA, uma terra responsável, séria, apesar de um tanto entediante, de torcedores de hóquei e de um sistema de saúde universal e abrangente. Sobre as grandes questões, há muito que ele fazia o papel de escoteiro global, oferecendo uma liderança moral em tudo, da proteção da camada de ozônio à erradicação de minas terrestres e os direitos dos gays.

O romancista Douglas Adams, certa vez, ironizou e disse que, se os EUA se comportavam normalmente como um adolescente belicoso, o Canadá era uma mulher inteligente na faixa dos 30. Basicamente, o Canadá era os EUA - não como eles são, mas como deveriam ser. No entanto, um segredo tenebroso espreita as florestas setentrionais do país.

Ao longo da última década, o Canadá se transformou, com grande alarde, em um centro internacional de mineração e um Estado petrolífero irresponsável. Ele já não é a metade melhor da América, mas uma visão distópica do futuro empapado de energia do continente.

Uma coisa é certa: o bom vizinho atrelou sua economia ao elixir amaldiçoado da disfunção política - o petróleo. Ofuscado pelas visões de se tornar uma superpotência energética global, o governo do Canadá se mancomunou com evangelistas dos oleodutos, valentões do petróleo e céticos da mudança climática. Ocorre que o escoteiro não está apenas viciado em petróleo bruto - ele se tornou um traficante. E isso ainda não é o pior de tudo.

Agora que o petróleo e o gás correspondem a aproximadamente um quatro de suas receitas de exportação, o Canadá perdeu sua tradicional cordialidade. Desde que o Partido Conservador conquistou maioria no Parlamento, em 2011, o governo federal atacou ambientalistas, nações indígenas, comissários europeus e praticamente todos os que se opuseram à produção irrestrita de petróleo.

O governo amordaçou cientistas estudiosos das mudanças climáticas, cassou o financiamento a todo tipo de ciência ambiental e, em leis sem precedentes, desmantelou sistematicamente a muito elogiada legislação ambiental mais significativas do país.

O autor dessa metamorfose é o primeiro-ministro Stephen Harper, um cristão evangélico e "rato político" de direita com base eleitoral em Alberta, marco zero do boom petrolífero do Canadá. Do jeito que Margaret Thatcher baseou a renovação política da Grã-Bretanha na receita do petróleo do Mar do Norte, Harper pretende reformar toda a experiência canadense com petrodólares extraídos do solo.

No processo, ele concentrou poder no escritório do primeiro-ministro e reorientou as prioridades externas do Canadá. Harper, que assumiu o cargo em 2006, aumentou os gastos com Defesa em US$ 1 bilhão, anualmente, em seus primeiros quatro anos, e comprometeu US$ 2 bilhões para a expansão de prisões com uma política de "endurecimento ao crime" que faz vista grossa à queda da taxa de criminalidade do país. Enquanto isso, o Canadá acumulava uma enorme dívida federal - a mais alta de sua história, de cerca de US$ 600 bilhões.

Os críticos liberais gostam de dizer que a revolução política de Harper pegou muitos canadenses, em geral pessoas gordas e apáticas, de surpresa. Isso pode ser verdade, mas, embora os canadenses vivam em latitudes altas, eles não estão acima dos instintos humanos mais baixos - como a ganância.

Harper fez uma aposta econômica no petróleo, o recurso natural mais volátil do mundo, prometendo uma nova prosperidade nacional com base em riquezas inexploradas distantes de onde a maioria dos canadenses vive que encherão seus bolsos por gerações. Com o apoio de quase três quartos dos canadense, tudo indica que Harper está convencendo o país.

O recurso natural que está por trás de muitas dessas mudanças comportamentais nefastas é o betume, um petróleo bruto pesado e ácido extraído de areias petrolíferas. Os depósitos da substância muito degradada, parecida com asfalto, repousam sob uma floresta do tamanho da Flórida, no nordeste de Alberta, e representam a terceira maior reserva de petróleo do mundo.

Ao longo da última década, enquanto os preços do petróleo quintuplicavam, as companhias petrolíferas investiram aproximadamente US$ 160 bilhões para desenvolver o betume de Alberta até ele se tornar lucrativo.

Hoje, o Canadá produz 1,7 milhão de barris por dia de betume e a produção programada deve encher os cofres dos governos provincial e federal com cerca de US$ 120 bilhões em arrendamento e royalties até 2020. Mais de 40% dessa receita vão diretamente para o governo federal ,principalmente na forma de impostos corporativos. Mas o governo quer ainda mais e está se empenhando para a produção atingir 5 milhões de barris por dia até 2030.

Pouco importa que o processo todo seja confuso e perdulário. Ele requer quantidades copiosas de água, capital e energia para escavar as areias ricas em carbono, para não falar de melhorar e processar o óleo bruto pesado, que não dá nem para escoar por um oleoduto se não for previamente diluído num condensado importado semelhante à gasolina.

Com o maior descaramento, o governo ainda defende o megaprojeto de Alberta como "responsável" e "sustentável" - "um empreendimento de proporções épicas, comparável à construção das pirâmides ou à Grande Muralha da China, só que maior". De fato: os projetos de extração do betume aprovados poderiam escavar uma área florestal seis vezes o tamanho da cidade de Nova York. Recuperação e reflorestamento continuam sendo uma proposta incerta e cara. Até agora, as companhias petrolíferas já criaram lama tóxica de mineração suficiente (6 bilhões de barris) para inundar Washington.

Não espanta que Ottawa tenha se tornado mestre na arte cínica da falsa responsabilidade ambiental. Quando ministros de Harper não estão atacando o ex-cientista da Nasa James Hansen nas páginas do New York Times ou fazendo lobby contra as normas para a qualidade de combustíveis da Europa (que considera o betume mais poluente do que o petróleo convencional), seu governo gastou US$ 100 milhões, desde 2009, em anúncios para convencer os canadenses de que exportar esse petróleo é um "desenvolvimento responsável de recurso natural".

Cobiça. Ao mesmo tempo, o Canadá fez de tudo para seduzir Pequim. Três companhias petrolíferas estatais chinesas (todas com histórico lamentável em transparência) já gastaram mais de US$ 20 bilhões comprando direitos de exploração das areias petrolíferas de Alberta. A bajulação da China, hoje a maior consumidora de petróleo do mundo, mostra o dilema do betume do Canadá: como levar petróleo sujo enterrado no chão a mercados globais.

Os EUA, o maior cliente do Canadá, não parecem necessitar mais dele. As importações caíram mais de 4 milhões de barris por dia, entre 2005 e 2011, e com os projetos de oleodutos para os EUA atolados na lama, a visão de Harper de ser uma "superpotência energética emergente" parece em perigo.

Não espanta que Harper tenha encerrado as críticas ao histórico de direitos humanos da China. Como deixa claro um documento secreto de política externa vazado, no ano passado, para a Canadian Broadcasting Corp. (CBC), o Canadá tem novas prioridades: "Para vencermos, precisamos buscar relações políticas combinadas com os interesses econômicos, mesmo onde os valores e interesses políticos possam não se alinhar".

Em 2012, o Canadá assinou silenciosamente um acordo comercial com a China e aprovou uma compra de US$ 15 bilhões da Nexen, operadora em areias petrolíferas, pela China National Offshore Oil. Agora que as areias petrolíferas respondem por quase 10% das emissões de gases estufa do Canadá, Ottawa não pode tolerar nenhuma discussão sobre um imposto do carbono, embora a maioria dos canadenses seja a favor.

Harper descreveu o Protocolo de Kyoto como "um esquema socialista" e um acordo "destruidor de economias e eliminador de empregos" antes de se retirar por completo dele, em 2012. Muitos ministros canadenses hoje são céticos até mesmo da ciência por trás das mudanças climáticas. Como explicou o ministro dos Recursos Naturais, Joe Oliver: "Creio que as pessoas não estão tão preocupadas como estavam antes sobre o aquecimento global de 2 graus. Os cientistas nos disseram que nossos temores são exagerados".

Para silenciar opositores, o governo simplesmente parou de financiar a Canadian Foundation for Climate and Atmospheric Sciences, desmantelou o Environment Canada's Adaptation to Climate Change Research Group e eliminou o papel de consultor chefe de ciência. E, desde 2008, os dirigentes políticos vetaram todos os pedidos de recursos para 23 mil cientistas federais do país.

Depois que o governo proibiu um cientista de falar sobre a descoberta de um grande buraco na camada de ozônio no Ártico, um editorial, em 2012, na influente publicação científica Nature pediu que Ottawa "libertasse seus cientistas". Ao que parece, Harper não ouviu: seu governo fechou sumariamente a mundialmente famosa estação de pesquisa Experimental Lakes Area, uma joia da ciência experimental canadense, que ajudou a instigar uma política global sobre a chuva ácida, para economizar a soma principesca de US$ 2 milhões por ano (embora o governo de Ontário esteja trabalhando para mantê-la aberta).

A continuação obstinada desse projeto petrolífero tem assombrado analistas. A revista Economist, que não é nenhum farol de esquerda, caracterizou Harper, o filho de um contador da Imperial Oil, como um valentão "intolerante com críticas e dissidentes" com um hábito contumaz de violar as regras.

Lawrence Martin, um dos comentaristas políticos mais influentes do Canadá, diz que "a governança no porrete" de Harper desbravou "novos terrenos na subversão do processo democrático". O especialista em pesquisas eleitorais conservador Allan Gregg descreveu a agenda de Harper como um "assalto ideológico a evidências, fatos e razão".

Plano. O governo Harper tem um único plano para enfrentar as mudanças climáticas: empurrar o problema para EUA e China. O petróleo bruto das areias petrolíferas transportado para os EUA pelo oleoduto Keystone XL, por exemplo, poderia aumentar, em 50 anos, as emissões de carbono em até 935 milhões de toneladas métricas em relação a outros petróleos brutos.

O planejado oleoduto Northern Gateway, de US$ 5,5 bilhões, de Alberta ao Oceano Pacífico, resultaria num aumento de 100 toneladas métricas de emissões de dióxido de carbono por ano, da extração e produção no Canadá à queima na China - mais do que as emissões totais da Colúmbia Britânica em 2009.

O Relatório sobre Estoque Nacional de 2012 do Environment Canada, departamento ambiental do país, diz que o Canadá reduziu parcialmente a intensidade das emissões totais nas areias petrolíferas "exportando mais betume bruto".

Tudo isso ressalta a nova realidade do Canadá: praticamente todo tipo de evidência racional está sendo atacada por um governo que acredita que os mercados - e somente eles - têm as respostas. Toda lei que o setor considere um obstáculo à rápida extração mineral ou à construção de oleodutos tem sido reescrita com floreios ao estilo saudita.

Uma única lei orçamentária abrangente alterou 70 outras leis, eliminando, por exemplo, a Lei dos Pesqueiros, que proibia diretamente a destruição de hábitats de vida aquática e estava no caminho do oleoduto Northern Gateway, que terá de cruzar 1.000 cursos d'água até o Oceano Pacífico.

Ao mesmo tempo, o financiamento do emblemático sistema de parques do Canadá foi cortado em 20%, o que os críticos chamaram de "lobotomia". A CBC, respeitada emissora estatal há muito ironizada por Harper como uma crítica independente do poder, sofreu uma série de cortes.

O Conselho de Saúde, que já assegurou padrões nacionais e inovação nas 13 províncias e territórios também sofreu cortes. Além disso, com o ímpeto de um príncipe do Oriente Médio, Harper nomeou o chefe de sua segurança embaixador na Jordânia. E fez tudo isso sem um pio do povo canadense.

Há mais de uma década, o cientista político americano Terry Lynn resumiu a disfunção dos Estados petrolíferos: países que se tornam dependentes demais das riquezas de petróleo e gás se comportam como economias de plantation, que dependem de uma trajetória de desenvolvimento insustentável alimentada por um recurso esgotável" cujos fluxos de receita formam "uma barreira implacável para mudanças".

Foi o que ocorreu com o Canadá enquanto ninguém estava olhando. Preso à arrogância de um líder que sonha em construir uma nova superpotência energética global, o escoteiro virou escravo de sua própria cobiça. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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