Vincent Tullo/The New York Times
Vincent Tullo/The New York Times

Arte devolve face a ilegais mortos

Estudantes de Nova York esculpem rostos de imigrantes que morreram no deserto do Arizona a partir de cópias de impressora 3-D de seus crânios

O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 05h00

Quando os procedimentos de reconhecimento de cadáveres por meio de impressões digitais, arcadas dentárias ou amostras de DNA são incapazes de estabelecer sua identidade, em razão de avançados estágios de decomposição dos corpos ou por outros motivos, artistas forenses têm de entrar em ação. 

A partir de crânios humanos, os profissionais recriam o rosto dos mortos, fabricando pistas essenciais para identificá-los. Alunos da New York Academy of Art utilizaram essas técnicas para fazer esculturas que reproduzem as faces de oito imigrantes cujos restos mortais foram encontrados no deserto do Arizona.

Os momentos finais dessas pessoas permanecerão um mistério. Mas as causas das mortes são evidentes: “insolação, exposição a um ambiente de excesso de calor, desidratação, pressão baixa e hipertermia, em razão da exposição ao calor do deserto”. 

Os procedimentos de identificação convencionais não funcionaram com esses oito imigrantes. A tarefa cabe agora aos alunos da oficina de reconstrução facial desta escola, que desde 2015 se dedicam a tentar resolver “casos frios”, de desaparecimentos e assassinatos, cujas vítimas não foram identificadas. 

Nas aulas, o artista forense Joe Mullins ensina a reconstrução facial de maneira sofisticada, fundindo ciência, arte e antropologia. Os jovens estudantes de arte, cujo treinamento básico inclui aulas de anatomia, receberam no último curso cópias dos crânios dos imigrantes, fabricadas por impressoras 3-D e feitas a partir do escaneamento das ossadas originais. As réplicas são consideradas evidências forenses.

Esculpidas meticulosamente em argila, que é aplicada sobre os crânios copiados, com bolas de gude no lugar dos olhos e pupilas pintadas, as reconstruções dos alunos estão expostas nas vitrines da academia. Reconstruir uma face com precisão científica implica a reconstituição de músculos e outros tecidos, camada por camada. As aulas começam pela análise de pistas nos crânios que levem à descoberta da grossura dos lábios e dos formatos de olhos, narizes, queixos, lóbulos de orelhas e curvatura das sobrancelhas. 

Força-tarefa. “Somos criaturas visuais. Quando não temos um rosto visível (em razão da decomposição do tecido), pedimos aos artistas que nos deem sua percepção de como a pessoa poderia ser”, afirmou o antropólogo forense Bruce Anderson, do centro médico-legal do condado de Pima, no Arizona, que forneceu à escola as matrizes para a reconstrução facial dos imigrantes mortos no deserto.

As reconstituições faciais foram publicadas no site do Sistema Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Identificadas, do Departamento de Justiça americano. Ou seja, o trabalho serve primeiro para a hipótese, ainda que remota, de um parente reconhecer os traços do morto. Mas o objetivo mais amplo é chamar a atenção para o número de cadáveres de imigrantes não identificados que a travessia produz.

Apesar de uma acentuada queda nas tentativas de cruzar ilegalmente a fronteira entre México e EUA, as mortes nas regiões próximas ao limite entre os dois países aumentaram no ano passado, segundo a Organização Internacional para a Migração, da ONU. Desde 2001, os restos mortais de aproximadamente 2,8 mil imigrantes foram encontrados somente no condado de Pima. Cerca de mil desses corpos continuam sem identificação.

Fiscalização intensa na fronteira e políticas rigorosas de deportação têm levado os imigrantes a tentar entrar nos EUA em locais mais remotos, com terrenos mais inóspitos. O tecido dos corpos de quem não resiste às travessias frequentemente é devorado por abutres e outros bichos em poucos dias. “Se há algo mais perigoso do que cruzar o Deserto de Sonora com um traficante de pessoas, é tentar cruzar por conta própria”, disse Anderson. / NYT

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