EFE/EPA/SERGEI ILNITSKY
EFE/EPA/SERGEI ILNITSKY

ARTIGO: A ameaça à democracia do Ocidente começa em casa

Para proteger a liberdade, é preciso melhorar instituições, reduzir a desigualdade e assegurar que a globalização funcione para todos

Shlomo Ben-Ami / Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

27 Março 2018 | 05h00

Quatro dias antes das eleições de 1924 no Reino Unido, o Daily Mail publicou uma carta supostamente escrita pelo presidente do Comintern, Grigori Zinoviev, conclamando os comunistas britânicos a mobilizar "forças simpatizantes" no Partido Trabalhista para apoiar um tratado anglo-soviético e incentivar a “propaganda de agitação” nas forças armadas. Descobriu-se que a carta era falsa - forjada por antibolcheviques do exército branco ou talvez pelo próprio serviço secreto da Grã-Bretanha - mas não antes de ter provocado a derrota do primeiro governo trabalhista do Reino Unido.

As atuais campanhas russas de desinformação, parte da guerra híbrida do Kremlin contra as democracias ocidentais, parecem ter muito em comum com a infame carta de Zinoviev. Mas o impacto de ambas é realmente comparável? Será que as democracias ocidentais realmente pareceriam diferentes hoje sem subterfúgios russos?

Segundo Gérard Araud, embaixador da França nos Estados Unidos, a interferência e a manipulação eleitoral russa, se não forem controladas, podem representar uma “ameaça existencial” às democracias ocidentais. Em outras palavras, um autocrata governando um país empobrecido com uma economia dependente do petróleo, menor que a do Brasil, poderia ser capaz de derrubar as grandes democracias do mundo.

A própria eleição presidencial da França no ano passado parece contestar a leitura de Araud. A campanha cibernética russa contra o centrista Emmanuel Macron – destinava-se a ajudar a candidata de extrema-direita Marine Le Pen - incluiu de tudo, desde a publicação de alegações infundadas de que Macron é gay à difusão de documentos falsos alegando que ele tinha uma conta bancária no exterior. No entanto, hoje, Macron é o presidente da França, e Le Pen luta para reformular seu partido.

Isso não quer dizer que a Rússia não pode ser um sabotador perigoso. Tampouco se deve diminuir os riscos de a mídia social distorcer a visão dos usuários sobre a realidade, facilitando a disseminação de notícias distorcidas e até mesmo totalmente falsas (embora muitos especialistas acreditem que a Internet seja muito mais eficaz na produção de “ativismo de sofá” do que na real mobilização política).

Mas a ordem liberal do Ocidente não está em crise por causa da Rússia. As democracias ocidentais devem assumir a responsabilidade por uma crise que, em última instância, é desenvolvida internamente - alimentada pela incapacidade de seus líderes de confrontar efetivamente os desafios da globalização.

A característica mais preocupante da eleição presidencial dos EUA em 2016 não foram os “trolls” e “bots” russos que tentaram semear a oposição a Hillary Clinton. Em vez disso, foi o fato de 61 milhões de cidadãos americanos acreditarem cegamente nas mentiras flagrantes de Donald Trump, o candidato presidencial menos instruído e mentiroso da história dos EUA. Não ajudou, claro, que Clinton - capacitada por um obstinado establishment do Partido Democrata - tenha conduzido uma campanha fraca e sem visão, que ignorou a crescente revolta de milhões de eleitores que se sentiram deixados para trás pela globalização.

Além disso, não foi o presidente russo Vladimir Putin quem criou a crise ética que aflige o capitalismo ocidental. Isso foi conseguido pelos banqueiros americanos, que, aproveitando a desregulamentação e a interconectividade financeira, desorientaram a economia global com o colapso financeiro de 2008. Os políticos dos EUA então recusaram-se a implementar novas regulamentações bancárias adequadas, e menos ainda punir aqueles que causaram a crise e lucraram bastante ao longo do caminho. Na Europa, falhas éticas e políticas semelhantes em resposta à globalização alimentaram o amplo apoio aos populistas da direita e da esquerda.

Os partidos populistas antes confinados às beiradas da política não ganharam quase a metade dos votos nas recentes eleições da Itália por causa das campanhas de desinformação russas. Eles venceram por causa da raiva crescente em relação a um establishment político corrupto que não conseguiu enfrentar os grandes problemas econômicos, da instabilidade financeira ao elevado desemprego entre os jovens. As persistentes desigualdades regionais da Itália também estavam em nítida exposição: enquanto o próspero norte favorecia o partido da Liga contra os imigrantes, o Movimento 5 Estrelas, mais populista, recebia a maior parte de seu apoio no Sul mais pobre.

Putin pode até se beneficiar de tais resultados eleitorais, mas isso não o torna responsável por eles. Políticos nacionais - dos defensores do Brexit a Trump - são os que defendem políticas de divisão, recusando-se a admitir a importância da cooperação e da ética na formulação de políticas, fustigando as elites tradicionais e instituições estatais, e elogiando autocratas, inclusive o próprio Putin. O slogan da campanha do partido da Liga da Itália – “Italianos primeiro” - não poderia ser um tributo mais direto ao enfoque nacionalista de Trump.

Os meios de comunicação serviram para reforçar essas narrativas. Sim, descobriu-se que os russos estão por trás de algumas das “notícias falsas” espalhadas pela mídia social. Mas no Reino Unido, por exemplo, os tabloides pertencentes a Rupert Murdoch e Jonathan Harmsworth, mais conhecido como Lord Rothermere, fizeram muito mais para semear a oposição à União Europeia antes do voto do Brexit.

A história também teve sua parte. O euroceticismo das “democracias não liberais” do Leste europeu reflete arraigadas tradições religiosas e autoritárias, que impediram a internalização dessas sociedades da cultura pós-moderna da UE de tolerância secular e valores universais. A combinação polonesa de feroz sentimento antirrusso e nacionalismo religioso extremo ilustra essa dinâmica.

O fato é que o Ocidente está atormentado por profundas desigualdades sociais, reforçadas nas últimas décadas por uma globalização mal administrada. Ao mesmo tempo, seu establishment político tornou-se cada vez mais desconectado do público, assim como ocorreu na Europa entre guerras - um desenvolvimento que alimentou a ascensão do fascismo e do autoritarismo populista. Essa dinâmica é particularmente aparente na UE, onde muitas decisões estão nas mãos de uma burocracia distante e irresponsável, sem a suficiente legitimidade democrática.

A Rússia não representa uma ameaça existencial à democracia do Ocidente. A União Soviética representou um desafio muito mais formidável, e acabou entrando em colapso sob o peso de seu próprio fracasso econômico. Os problemas internos da Rússia - não só a estagnação econômica, mas também o declínio demográfico - são de uma escala semelhante.

Mas isso não significa que a democracia ocidental esteja a salvo. Para protegê-la, os líderes ocidentais precisam defrontar-se com suas próprias deficiências. Isso significa melhorar as instituições, melhorar a responsabilidade democrática, reduzir a desigualdade econômica e social e esforçar-se para assegurar que a globalização funcione para todos. / Tradução de Claudia Bozzo

* Shlomo Ben-Ami, ex-ministro das Relações Exteriores de Israel, é vice-presidente do Centro Internacional de Paz de Toledo. Ele é o autor de Scars of War, Wounds of Peace: The Israeli-arab Tragedy (“Cicatrizes de guerra, feridas da paz: a tragédia israelense-árabe”, em tradução livre).



 

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