A América Latina deve se preocupar com Trump?

Caso se eleja, candidato republicano deve chegar à Casa Branca sem planos para a região - ou mesmo para o restante do mundo

Peter Hakim, O Estado de S. Paulo

14 Maio 2016 | 22h00

Há quatro meses, um jornalista da BBC proclamou que, no México, Donald Trump era “o inimigo público número um”. Identificando os ataques de Trump contra o México e os mexicanos com a retórica e o estilo de Hitler e Mussolini, o presidente Enrique Peña Nieto pode ter exagerado, mas nenhuma outra figura política dos EUA de recente memória provocou mais cólera e ressentimento no país vizinho. Embora Trump não tenha atacado diretamente alguma outra nação latino-americana, a retórica e a beligerância da sua campanha têm gerado inquietação em toda a região.

Como o resto do mundo, os latino-americanos observam incrédulos como Trump, de um aspirante viável à candidatura presidencial rapidamente se transformou no candidato republicano. As pesquisas hoje preveem que ele será derrotado por Hillary Clinton na eleição geral. Mas as suas chances não devem ser subestimadas. Hillary continua a revelar fraquezas e vulnerabilidades em sua campanha. Ninguém esperava que ela encontraria dificuldades para frear o desafio colocado por Bernie Sanders à sua nomeação como candidata democrata. Embora improvável, a candidatura de Trump é séria. Ele poderá ser eleito o 45.º presidente dos Estados Unidos. Melhor do que qualquer dos seus rivais, ele habilidosamente tem explorado a ira e o ressentimento da população com a política americana atual.

No único discurso político até agora durante sua campanha, Trump ignorou a América Latina. Desde que se declarou candidato, no entanto, Trump concentrou grande parte da atenção no México. Ao contrário de muitos republicanos, Trump detesta os acordos de livre comércio. Sua virulência se concentra particularmente no NAFTA - Acordo de Livre Comércio da América do Norte assinado por EUA, México e Canadá em 1993. Ele afirma que o México monopolizou injustamente os benefícios desse acordo. Trump insiste que o NAFTA “é o pior acordo comercial do mundo” e tem de ser totalmente renegociado ou extinto.

Ele prometeu honrar os tratados firmados com aliados, mas não especificou se o México se qualifica como aliado ou não. Trump parece também ignorar que o NAFTA é um acordo que envolve Canadá e México e os dois países são o primeiro e o terceiro maiores parceiros comerciais dos Estados Unidos e representam 40% do comércio global do país. Só o México responde por 60% de todo o comércio dos Estados Unidos com a América Latina. 

Muro. Sobre a política de imigração, Trump, pessoalmente, é mais ofensivo. Embora as pesquisas mostrem que a maioria de americanos defende uma reforma pragmática e humana das leis de imigração do país, as diatribes contra os imigrantes por parte do candidato são bem acolhidas por determinados setores. 

O programa que ele defende é cruel e ofensivo e provavelmente não funcionará. Abrange deportações em massa, impostos elevados sobre remessas feitas pelos imigrantes para o México, além da construção de um muro na fronteira com o México. Além disso, Trump promove esse programa com uma retórica agressiva, desairosa e abertamente beligerante. Expressa um profundo desdém e antipatia com relação ao México e os mexicanos - o que soa racista para muitos e mostra o desrespeito com outros latino-americanos e hispânicos nos EUA.

Consiga ou não impor sua estratégia, o fato é que os ataques de Trump já azedaram as relações entre os dois países, preocupando grande parte da América Latina.

Muitos latinos estão preocupados com a perspectiva de uma presidência Trump e os danos que isso pode causar para seus países. Mas é improvável que a eleição do bilionário signifique uma drástica reformulação da política americana para a região. Além do México, ele não tem mostrado nenhum interesse em assuntos do hemisfério. Sozinho entre os candidatos presidenciais republicanos, Trump não se incomodou com a espetacular transformação da política americana promovida por Obama em relação a Cuba. Embora não seja provável que mude essa política, há dúvidas quanto a se ele persistirá no abrandamento das restrições americanas à ilha.

Rusgas. Possivelmente, um governo Trump será menos tolerante com as mordazes críticas feitas pela Venezuela ou outro país contra os EUA e mais inclinado a responder de alguma maneira. Mas seria também o caso de Hillary Clinton. Mas as consequências práticas de qualquer modo não serão muito significativas. Independentemente das bravatas de Trump é difícil hoje identificar as circunstâncias que levariam os Estados Unidos a intervir unilateralmente em qualquer país latino-americano.

Com relação à América Central, aquele que ocupar a Casa Branca provavelmente continuará a reforçar os programas de ajuda lançados por Obama, destinados a desestimular a emigração da região. Um governo Trump deverá se mostrar mais simpático às objeções feitas pelo presidente Alvaro Uribe ao acordo de paz que vem sendo negociado pelo governo colombiano com as guerrilhas das Farc. Mas o caminho mais provável será um apoio de Washington a um pacto negociado do conflito. A presença cada vez maior da China na América Latina poderá despertar mais atenção e preocupações com a influência russa e iraniana poderão aumentar, mas não há muito que o governo americano possa fazer nesse aspecto.

O fato é que Trump, se eleito, provavelmente entrará no Salão Oval sem muita coisa programada para a América Latina ou mesmo para o restante do mundo. Ele não disse uma palavra sobre o Brasil. Mal mencionou Cuba ou qualquer outro país da América Latina além do México. Claro que uma presidência Trump, se ele persistir nos seus impulsos anti-imigração, poderá causar problemas de fato para o México. Mas quando os custos forem contabilizados e ficar claro que ninguém se beneficia com isso, até Trump poderá ser dissuadido de liquidar o NAFTA ou erigir um muro na fronteira. Ou poderá descartar essas posições e adotar outras, como já ocorreu no caso de muitos outros assuntos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Peter Hakim é Presidente Emérito do Diálogo Interamericano


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