Chris Ratcliffe/Bloomberg
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Artigo: A China mudou; Washington está notando isso?

Com a abolição dos limites de mandato, Xi Jinping pode permanecer como presidente, secretário-geral do PC Comunista e chefe da Comissão Militar o restante da sua vida

Fareed Zakaria / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 Março 2018 | 03h00

A China está realizando a mais crucial mudança do seu sistema político em 35 anos. Que impacto terá essa alteração sobre a China e o mundo? Deng Xiaoping é lembrado como o homem que iniciou as reformas econômicas na China. Mas suas reformas políticas foram mais importantes. 

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Talvez a transformação mais significativa tenha sido em 1982, quando o Partido Comunista Chinês incluiu na Constituição a regra de que seu presidente e vice não podiam exercer mais do que dois mandatos, tornando a China um caso peculiar: uma ditadura com limites de mandato. 

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O modelo adotado pela China também produziu um milagre econômico, durante três décadas a seleção e a promoção dentro do Partido Comunista tiveram o mérito como base, e estabeleceu um planejamento de longo alcance racional de políticas econômicas com vistas ao crescimento. Desde 1978 o PIB do país cresceu a uma taxa média anual recorde de quase 10%, o que segundo o Banco Mundial foi “a expansão sustentada mais rápida de uma grande economia na história”.

Durante décadas a China parecia ficar cada vez mais institucionalizada. Deng governou como líder supremo, exercendo seu poder mais dos bastidores. Seu sucessor, Jiang Zemin, deteve todos os postos-chave quando estava no poder. E mesmo mais tarde continuou a ser influente. Quando seu sucessor, Hu Jintao, concluiu dois mandatos na presidência, renunciou ao mais alto posto do Exército e perdeu quase todo o poder ao mesmo tempo. 

Mas essa tendência virou de ponta cabeça. Com a abolição dos limites de mandato, Xi Jinping pode permanecer como presidente da China, secretário-geral do PC Comunista e chefe da Comissão Militar o restante da sua vida. E ele tem apenas 64 anos.

Xi é um líder forte. Enfrentou a corrupção no PC e a poluição provocada pelo rápido crescimento da economia. Suas medidas foram muito populares. Mas ele não resolveu outros problemas fundamentais: reformas econômicas há muito retardadas e a redução da dívida crescente. Os defensores de Xi alegam que sua consolidação de poder permitirá que ele adote essas medidas difíceis e inicie uma nova etapa de reformas.

Mas o real desafio para a China não tem a ver com políticas econômicas que Xi venha a decidir. Ele tem relutado em adotar medidas duras e impopulares. O perigo é que a China elimina agora uma restrição crucial em um sistema que fornece um nível assombroso de poder aos líderes do país. O que isso significará para as ambições de líderes? “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, escreveu Lord Acton em 1887. 

Sob a liderança de Xi, a China tornou-se mais ambiciosa internacionalmente. Hoje é a segunda maior economia do mundo, a terceira maior financiadora da ONU e fornece mais soldados de manutenção da paz do que os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança juntos. O país vem aumentando a força do seu Exército e consagrando recursos importantes para instituições culturais no exterior. Anunciou um programa de empréstimos e investimentos chamado One Belt and One Road (Um cinturão e uma estrada) – dez vezes maior que o Plano Marshall, segundo cálculos. E está determinado a liderar o mundo em áreas como energia solar e eólica, carros elétricos e inteligência artificial.

Desde que o PC assumiu o poder em 1949, foram 30 anos de governo Mao, seguido por cerca de 30 anos de Deng. Está claro que entramos na terceira era, que poderá durar 30 anos com Xi. Alguém em Washington está prestando atenção nisso? / Tradução de Terezinha Martino

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