Turquia; Rússia; atentado
Turquia; Rússia; atentado

Artigo: A concretização dos medos em um ano violento

Na Turquia e na Alemanha, ataques brutais insinuam que o terrorismo é o ‘novo normal’ em sociedades antes abertas como a alemã

TIM ARANGO*, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2016 | 05h00

Um homem bem barbeado e garboso em seu terno escuro mostra o distintivo de policial para entrar no mais tranquilo dos eventos – uma exposição de fotos. Então, saca a pistola e mata um embaixador em pleno bairro diplomático da capital turca, Ancara.

Em Berlim, à sombra de uma grande igreja que ainda exibe cicatrizes de bombas da 2.ª Guerra, um homem investe com o caminhão numa feira natalina, matando 12.

Os dois ataques ocorreram na segunda-feira, no fim de um ano em que a metástase das guerras do Oriente Médio se espalhou pela Europa semeando terrorismo, chocando a população e alimentando movimentos políticos de extrema direita. As ações podem ter sido diferentes em estilo, mas cada uma mostrou, a seu modo, uma nova era de terror nascida da expansão de guerras que desafiam esforços internacionais para encerrá-las.

Para a Turquia, o assassinato do embaixador russo Andrei Karlov foi o fecho sinistro do ano mais violento da história moderna do país, com ataques terroristas tornando-se acontecimentos da vida diária. Neste ano, um golpe fracassado deu lugar a um expurgo na sociedade civil e uma guerra contra separatistas curdos vem assumindo níveis crescentes de brutalidade.

Para a Alemanha, o ataque foi a concretização do medo de que o país seria a próxima vítima. O futuro se mostra preocupante: com a ameaça terrorista virando realidade, cresce o temor de que a Alemanha, que recebeu bem os refugiados, veja sua política ameaçada pela ascensão do populismo de direita.

A morte do embaixador na Turquia, capturada em vídeo, foi uma exibição coreografada de precisão e determinação, com o assassino se movimentando e brandindo a arma, informando que a ação era vingança pelos bombardeios russos na cidade síria de Alepo. O atentado da Alemanha ainda precisa ser esclarecido.

Sombra. Em seu apartamento em Berlim, Can Dundar, conhecido editor turco de jornais, assistia à cobertura dos dois eventos em dois aparelhos de TV, enquanto o terror deitava garras em seu país de nascimento e no de adoção. Dundar mudou-se para a Alemanha para escapar da prisão após ser condenado por traição num tribunal turco, pela publicação de um artigo sobre o apoio da Turquia a rebeldes sírios.

“Não consigo me livrar, esses distúrbios me perseguem”, disse. Segundo o jornalista, todas as pessoas com quem conversou na Alemanha estavam esperando um ataque do gênero. “Dava para sentir a tensão, pois Berlim ainda não havia sido atacada.”

O atirador de Ancara, que gritou slogans jihadistas, foi identificado como um policial fora de serviço. O governo turco afirmou que ele seria ligado a Fethullah Gulen, clérigo exilado nos EUA que foi acusado de orquestrar a tentativa de golpe deste ano. Analistas descartaram a hipótese, considerando mais provável que o atirador tivesse conexões com grupos da Síria ou fosse um “lobo solitário”.

A Turquia pode estar acostumada a ataques terroristas frequentes, mas a Alemanha não está. A ameaça terrorista numa sociedade aberta como a alemã pode ter efeitos profundos.

“Como francês, meu primeiro pensamento foi ‘é Nice de novo’”, disse Marc Pierini, ex-embaixador da União Europeia na Turquia e hoje professor visitante na Carnegie Europe. Ele se referia ao ataque na França, quando um homem jogou um caminhão sobre a multidão numa rua de pedestres, matando mais de 80 pessoas.  “Somos sociedades abertas. A Europa Ocidental não é Israel, onde tudo está protegido.” Os europeus, disse ele, “aos poucos se dão conta de que o terrorismo é a nova normalidade”.

Turquia e Alemanha vêm discordando sobre vários pontos, incluindo um acordo para reduzir o fluxo de migrantes e a oposição alemã ao expurgo na Turquia após o fracassado golpe. Mas os dois países atuam juntos de outros modos. Há décadas, milhares de turcos trabalham na Alemanha, e, mais recentemente, intelectuais e outros pediram asilo no país para escapar do crescente autoritarismo na Turquia.

Tulin Yazici, uma intelectual turco-germânica, voltou a morar em Frankfurt, onde nasceu, depois que o governo turco passou a perseguir intelectuais. “Istambul era o lugar em que mais me sentia em casa”, disse Tulin. “Fiz minha carreira lá, casei, tive filhos. Mas após a tentativa de golpe o país fugiu de controle e o medo ficou cada vez mais próximo.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É JORNALISTA

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