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Artigo: A esquerda e a histeria sobre Trump

A fascinação de algumas pessoas de esquerda por teorias de conspiração autoritárias com relação ao novo governo é suficiente para olharmos para elas com ceticismo

Christine Emba* / The Washington Post , O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2017 | 05h00

Vamos nos defender! A mão temível do fascismo se aproxima. Liberais tradicionais redescobriram Hannah Arendt. O livro 1984 de George Orwell está no topo das vendas. A cada três artigos de revistas, um nos alerta sobre como estamos descambando para o autoritarismo. Celebridades estão compartilhando, desesperadas, postagens com títulos como “Balão de Ensaio de um golpe?”. De repente tudo vem nos lembrar o 3.º Reich. Ou não.

Não é irracional a preocupação sobre o governo Trump, que em apenas 15 dias conseguiu chocar e alarmar todo o eleitorado mais racional. Mas a fascinação de algumas pessoas de esquerda por teorias de conspiração autoritárias com relação ao novo governo é suficiente para olharmos para elas com ceticismo. A impressão que fica é que algumas pessoas querem que os piores pesadelos políticos se tornem realidade. Mas por quê?

Pode ser somente um desejo de colocar uma situação confusa em um discurso compreensível. Contra todas as expectativas, um apresentador de reality show, envolvido em escândalos e inexperiente vence a eleição presidencial, apesar de ter perdido no voto popular. Os primeiros dias de presidência de Trump têm sido uma confusão de ordens executivas ofensivas, demissões-surpresa, comunicados equivocados para a imprensa e expressões quase universais de repulsa por parte das elites políticas e de políticos experientes. Para muitos liberais acostumados com governos que, apesar de suas falhas, sempre procuraram governar regularmente e respeitar a tradição, é difícil aceitar um presidente tão despreparado. Talvez eles entendam que ele não seja tão despreparado e ignorante e tudo faz parte de um plano perverso mais abrangente. Pode ser algo insidioso, mas ao menos ordenado.

A campanha de Barack Obama em 2008 levava uma mensagem de esperança e mudança que cativou e motivou os jovens liberais que o apoiaram. Os oito anos seguintes tiveram altos e baixos, mas muito pouco correspondeu àquele entusiasmo – incluindo a medíocre campanha de Hillary Clinton.

Mas agora há uma chance de se juntarem à luta contra o fascismo e se identificarem com populações sitiadas, ameaçadas por um regime autoritário ameaçador? Participarem de uma resistência? Em uma era cada vez mais secularizada e pulverizada, buscamos coisas que têm significado e se conectam. Em casos extremos os indivíduos são atraídos para movimentos radicais como o Estado Islâmico. Numa escala menor isso significa se tornar um Weatherman (membro da Weather Underground Organization, um grupo americano de extrema esquerda fundado na Universidade de Michigan) atual. 

Menos filosófico, mas não menos importante, é o fato de que tudo é um tanto engraçado. Muita gente da esquerda se apressou em ridicularizar estas conjecturas com base em blogs e e-mails quando surgiram à direita depois de 2008, mas agora são mais fáceis de entender. Não podemos negar a empolgação de compartilhar uma solene postagem no Facebook e imediatamente receber agradecimentos pelo insight oferecido. É verdade também que grande parte dessa preparação mental para um apocalipse vem ocorrendo nas mídias sociais, onde a histeria sempre floresceu. 

“Acompanhar um ciclo de notícias minuto a minuto é ser constantemente ameaçado pela ilusão”, afirmou o acadêmico Alan Jacobs no mês passado. E no que se refere ao governo Trump, ao que parece, quanto mais assustadora, melhor.

Mas e se os temores forem válidos? Se o autoritarismo realmente é uma ameaça, será preciso mais do que compartilhar artigos online para criar uma real resistência. E essa proibição “fascista” da imigração? Segundo pesquisa recente, 48% dos americanos a apoiam. 

Dialogar com as pessoas cuja opinião sobre o governo Trump é diferente terá mais efeito sobre o futuro da república do que estimular a histeria em nossas bolhas sociais. Similarmente, rumores apocalípticos são menos úteis do que um envolvimento ao qual muitos, para ser justo, já aderiram – protestando, defendendo a nível local, telefonando para parlamentares, e como disse o deputado Dave Brat, da Virginia, desesperados com a situação. A indignação constante e o temor em ebulição têm mais probabilidade de desgastar as pessoas do que mantê-las em estado de alerta. Naturalmente, o rumor é tentação. A preocupação pode ser útil. Mas a histeria, bem menos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA 

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