Artigo: a guerra requer uma estratégia de duas etapas

Eliminar a ameaça do uso de armas químicas e encontrar solução diplomática para o processo de Genebra II são desafios dos EUA e aliados

Walter Pincus*, O Estado de S.Paulo - The Washington Post

19 Setembro 2013 | 02h06

Barack Obama levou seu país cansado de guerra a jogar um papel cada vez maior na guerra civil síria no último ano. Em público, isso evoluiu como uma confusa estratégia em duas etapas. No domingo, em entrevista ao programa This Week da ABC, ele disse estar menos preocupado com pontos de estilo. "Estou mais preocupado em fazer a política certa."

Estamos na Etapa 1: eliminar a ameaça de que o regime do presidente sírio Bashar Assad volte a usar armas químicas. Mas por mais complicado que seja, há conversações para a Etapa 2, uma solução diplomática para encerrar a luta pelo chamado processo de Genebra II. Isso se mostrará ainda mais difícil para os EUA e aliados conseguirem porque significará agrupar vários grupos de oposição.

As iniciativas de Obama sempre tiveram o objetivo de pôr fim ao regime sanguinário de Assad por meios diplomáticos. Mas com o cuidado para que nada levasse, direta ou indiretamente, à presença de soldados no terreno, medida que os americanos não apoiam.

Foi o posicionamento da formidável força americana em condição de desferir um ataque à infraestrutura de armas químicas de Assad que fez Rússia e Síria concordarem com o acordo. Por mais difícil que a iniciativa sobre armas químicas pareça, cumprir as metas estabelecidas para o processo de Genebra II promete ser muito mais.

Montado em junho de 2012 em Genebra pelo Grupo de Ação para a Síria, sob os auspícios da ONU, o primeiro objetivo era: "Todas as partes precisam se comprometer novamente com o fim da violência armada em todas formas".

Que incentivos tem Assad para concordar com um cessar-fogo? Neste caso, não há nenhuma ameaça de um ataque americano para diminuir seu poder militar ao atacar seus aviões ou estabelecer uma zona de exclusão aérea. Obama por enquanto descartou.

A promessa americana de aumento modesto no treinamento e provisão de armas leves a grupos rebeldes moderados foi feita em abril após os primeiros relatórios de que Assad havia feito ataques químicos pequenos e limitados.

Depois do ataque químico do dia 21, oficiais americanos testemunharam ao Congresso que, além de um ataque militar, o governo Obama estuda um forte aumento da ajuda militar e a transferência para o Departamento de Defesa. Isso poderia elevar rapidamente o treinamento, o fluxo de armas e fazê-lo mais abertamente que a CIA. Resta ver se será feito. Nesse ínterim, os EUA e seus aliados têm grandes problemas na preparação para a conferência de Genebra II. O primeiro seria a capacidade de conseguir que as unidades militares de oposição parem de lutar.

Além de um cessar-fogo, Genebra II estuda a montagem de um órgão de governo de transição com representantes de Assad e dos rebeldes. O órgão criaria uma nova Constituição, submetida à votação pública. Com os poderes que teria, há enorme interesse no grupo de transição. Desde maio, o secretário de Estado John Kerry tenta acordo entre a oposição sobre quem a representaria na conferência de Genebra II.

Um obstáculo anterior foi o general Salim Idriss, chefe do Conselho Militar Supremo do Exército Sírio Livre. Ele disse em junho que não compareceria a Genebra até receber armas que lhe deem mais poder.

Em Paris, na segunda-feira, o chanceler francês, Laurent Fabius, e o secretário do Exterior britânico, William Hague, se concentraram nos grupos de oposição sírios na discussão da prometida reunião do dia 27 à margem da sessão da Assembleia-Geral da ONU para discutir uma reunião de Genebra II.

"Sabemos que para negociar uma solução política, precisamos de uma posição mais forte. Pretendemos fortalecer nosso apoio à Coalizão Nacional Síria", disse Fabius.

*Walter Pincus é colunista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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