Andrew Caballero-Reynolds/AFP
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Artigo: A humilhação nacional que precisamos

No dia em que Trump deixar o cargo, teremos uma geração mais jovem com perspectivas de vida piores do que seus pais haviam enfrentado

David Brooks* / The New York Times , O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 04h30

Nós, americanos, chegamos ao feriado de 4 de Julho humilhados como nunca. Tínhamos um objetivo coletivo neste ano, vencer a covid-19, mas fracassamos. Na quinta-feira, tivemos mais de 50 mil novos testes positivos, um recorde. Outras nações estão superando a doença, enquanto nossos números de infecções sobem como se fosse março. Esse erro causará outros danos. Um terço dos americanos mostra sinais de ansiedade ou depressão clínica. As mortes por overdose de drogas aumentaram 42% em maio. Empresas, faculdades e centros comunitários serão fechados.

Pelo menos os americanos não negam a turbulência dos últimos meses. Segundo pesquisa da Pew, 71% estão com raiva e 66%, com medo. Apenas 17% estão orgulhosos. Há ainda duas reações positivas. Primeiro, vemos mudanças de atitude em relação à raça. Cerca de 60% dos americanos agora acreditam que os negros enfrentam discriminação. 

A segunda coisa é que os americanos decidiram se livrar de Donald Trump. Sua resposta à covid-19 prejudicou sua imagem com os eleitores mais velhos. Seus arroubos racistas – em um período de acerto de contas – o prejudicaram entre todos os grupos demográficos.

No dia em que Trump deixar o cargo, teremos uma geração mais jovem com perspectivas de vida piores do que seus pais haviam enfrentado. Teremos uma elite cultural que sabe pouco sobre as pessoas do interior do país e envia diariamente uma mensagem de que elas são ilegítimas. Teremos enormes desigualdades, segregação, capital social em ruínas e uma crise na formação da família.

A eleição de Trump, em 2016, foi um sintoma de todas essas crises, muito antes de ele se tornar uma causa adicional delas. Qual é o problema central? Damon Linker trata de uma parte: “É a recusa da parte de muitos americanos em pensar em termos do todo social, do que é melhor para a comunidade, do bem comum ou público”.

Eu acrescentaria que esse individualismo, atomismo e egoísmo estão a jusante de uma crise mais profunda de legitimidade. Em 1970, em um momento parecido, Irving Kristol escreveu: “Da mesma maneira que os homens não toleram por muito tempo a falta de sentido espiritual em suas vidas individuais, também não podem por muito tempo aceitar uma sociedade em que poder, privilégio e propriedades não são distribuídas de acordo com alguns critérios moralmente significativos.”

Muitas pessoas olham em volta para as condições dos EUA – como os negros são tratados, como as comunidades estão entrando em colapso, como Washington não funciona – e nada faz sentido. Nada inspira fé ou confiança. Somos confrontados com uma sucessão de problemas perversos e, ao que parece, não somos capazes nem mesmo de colocar no rosto uma simples máscara.

Estive pensando em uma cena do filme Gênio Indomável em que o personagem de Robin Williams senta com Will (vivido por Matt Damon) em um banco do parque e o confronta com a podridão de seu personagem. “Eu olho para você e não vejo um homem inteligente e confiante. Eu vejo um garoto arrogante e assustado.” Os últimos três anos foram como o discurso de Robin Williams para uma nação inteira, uma intervenção, uma revelação. 

Eu tinha esperanças de que a crise nos unisse, mas tornou tudo pior e mais difícil. Agora, me preocupo menos com populismo ou extremismo do que com a perda da fé nacional. O que está à espreita, em algum lugar lá no fundo, é o nosso amor por nosso país comum e uma visão para o papel que os EUA podem desempenhar como o grande farol pluralista do século 21. O 4 de Julho seria um bom dia para reencontrar essa fé.

*É COLUNISTA

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