Evan Vucci/ AP
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Artigo: Aniversário do apocalipse 

O país mudou no ano passado e muitas pessoas ficaram anestesiadas depois dos choques constantes. O que agora é considerado normal antes seria considerado inconcebível.

Michelle Goldberg */ The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2017 | 05h00

Há um ano, nos dias vertiginosos, com o temor de atentados terroristas dominando o ambiente, após a eleição de Donald Trump, procurei entender a nova realidade do país e perguntei a pessoas que vivem, ou viveram, sob um regime autoritário, o que esperavam do novo governo. Não estava em busca de prognósticos concretos - naquele momento ninguém tinha noção do que vinha sucedendo, mas estava interessada em insights sobre como o contexto da vida muda quando um demagogo autocrata assume o poder.

Um jornalista turco secular disse-me, com voz triste e cansada, que embora as pessoas pudessem inicialmente sair às ruas para protestar contra Trump, as manifestações desapareceriam quando o aturdido sentimento de urgência desse lugar a um esforço no sentido de uma oposição prolongada. Para a escritora dissidente russa Masha Gessen, quando um líder estabelece um cerco à realidade, não existe maneira de as pessoas terem uma noção plena do que é "normal”. "Você fica sem rumo e é confundido”, disse ela.

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Ambos estão certos. O país mudou no ano passado e muitas pessoas ficaram anestesiadas depois dos choques constantes. O que agora é considerado normal antes seria considerado inconcebível.

O governo está sob o comando de um racista irresponsável que, pelo Twitter, se envolve em uma discussão nuclear muito perigosa. Ele vem desmantelando o Departamento de Estado, defendendo o esvaziamento do corpo diplomático, quando afirma, na Fox News, que “sou a única pessoa que importa”.

Trump publicamente pressiona o Departamento de Justiça para investigar seus oponentes políticos. Solicitou a prisão de jornalistas e seu governo exigiu que uma comentarista esportiva que o criticou fosse demitida. Anúncios oficiais do governo promovem seus hotéis. Você pode protestar contra tudo isto, mas jamais fará algo mais. Após a eleição, muitos liberais prometeram não tratar Trump como “normal”. Mas uma lição que tivemos este ano é que não decidimos ainda o que é normal.

No mês passado o genro de Trump, Jared Kushner, realizou uma viagem não anunciada para a Arábia Saudita onde se reuniu com o príncipe da Coroa Mohammed Bin Salman, que posteriormente ordenou a prisão de vários rivais, incluindo um crítico de Trump, o príncipe Alwaleed Bin Talal. 

No Washington Post, David Ignatius descreveu as conversações de Kushner com o príncipe Mohammed deste modo: “Os dois príncipes ficaram acordados até as quatro horas da madrugada diversas noites, batendo papo e planejando estratégias”. Há um ano, essa frase seria incompreensível como descrição da diplomacia americana e até considerada uma piada de mau gosto.

Mas este ano de pesadelo mudou drasticamente a premissa sobre a durabilidade das regras, formais e informais, que governam nossa política. É como se fosse uma pancada metafísica a maneira como rapidamente o alarme se transforma em aceitação e depois em esquecimento. Foi assombroso quando Trump colocou Steve Bannon como seu principal estrategista, um homem que antes dirigia um tablóide nacionalista branco; hoje o sentimento é de se passaram anos desde que ele esteve na Casa Branca (ele permaneceu no posto menos de três meses).

Foi também algo espantoso quando evidências surgiram de que um dos ex-assessores da segurança nacional, Sebastian Gorka, era membro de um grupo húngaro alinhado com nazistas, chamado Vitezi Rend, e ainda mais chocante quando a revelação não levou a um fim imediato da sua carreira na Casa Branca.

Hannah Arendt escreveu sobre o papel que a vulgaridade teve na corrosão do liberalismo nas sociedades pré-totalitárias. “A aliança temporária entre a elite e a ralé repousava amplamente no genuíno prazer com que a elite observava essa ralé destruir a respeitabilidade”.

Pensei nisto quando vi Ted Nugent, que em diversas ocasiões pediu que Barack Obama fosse morto, sorrindo numa foto tirada no Salão Oval, ou Kellyanne Conway aparecendo na TV e pedindo à nação para comprar produtos de Ivanka Trump. Neste governo, a grosseria transformou-se em arma, aniquilando os códigos sociais que outrora restringiam o comportamento político, indicando que os antigos padrões não mais se aplicam.

Ultimamente o ritmo dos choques acelerou, mesmo que nossa capacidade para processá-los não o tenha. O ex-coordenador de campanha de Trump foi indiciado. Um dos seus primeiros assessores de política externa reconheceu ter mentido para o FBI sobre suas tentativas de conluio com a Rússia. Foi descoberto que seu secretário de Comércio, Wilbur Ross, é sócio de uma empresa com vínculos comerciais com o genro do presidente russo Vladimir Putin.

O novo diretor da Science Advisory Board, da Agência de Proteção Ambiental, afirmou que nosso ar “é bastante limpo para se ter uma saúde excelente”. O USA Today informou recentemente que o presidente nomeou diversos membros dos seus clubes para funções no governo federal.

Jamais na história moderna, disse o jornal, “um presidente distribuiu tantos postos no governo para pessoas que rendem dinheiro para suas próprias empresas”. 

Em outro governo seria um enorme escândalo. Neste, o assunto é pouco comentado.

Como os EUA conseguirão um dia sair deste nível de insanidade sistemática e corrupção? Gostaria de ter alguém a quem perguntar, mas sabemos mais sobre como os países derrapam para a autocracia e menos quanto à maneira de sair dela.

Passou-se um ano e ainda me sinto aturdida pela dor da destruição da nossa herança cívica. Em momentos de otimismo acho que este é apenas um interregno terrível e num futuro mais brilhante assistiremos a peças prestigiadas sobre a época em que quase perdemos a nação e os membros do atual regime envelhecendo na prisão. Mas ainda ouço a música que encerra os comícios de Trump, que me chega como um escárnio satânico, ou um epitáfio para a democracia: “Você nem sempre pode ter aquilo que deseja”. / Tradução de Terezinha Martino

*É JORNALISTA

 

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