Mark Schiefelbein/AP Photo
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Artigo: As cinco lições do líder chinês

Discurso do presidente chinês, Xi Jinping, reflete um país cada vez mais confiante e presente no cenário internacional 

Chris Buckley & Keith Bradsher* / The New York Times , O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2017 | 05h00

O presidente Xi Jinping disse que dará à China uma base de apoio mais segura, com a contenção dos riscos financeiros, incentivo à inovação e aumento dos gastos dos consumidores. Mas ele também evitou defender reformas liberalizantes que líderes anteriores, como Deng Xiaoping, usaram para levar a China ao crescimento estrondoso dos anos 80 e 90.

Desde então, esmoreceu o entusiasmo chinês pelas forças do mercado – e o discurso de Xi confirmou a tendência. Ele usou a palavra “mercado” apenas 19 vezes, em comparação com as 24 vezes que Hu Jintao a usou no congresso anterior, em 2012, e 51 vezes pelo então presidente Jiang Zemin, no congresso de 1997.

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Xi deu ênfase ao fortalecimento das estatais e defendeu uma regulamentação mais rigorosa de bancos e do sistema financeiro em meio a um aumento de empréstimos por parte de empresas e governos locais. Mas não mencionou o uso de ferramentas de mercado, tais como a transparência por parte de bancos e empresas, que muitos economistas defendem.

Ainda assim, Xi expôs alguns pontos, valiosos para os defensores das reformas econômicas. Pediu o desmembramento dos monopólios, embora ele supervisionasse a fusão das duas maiores fabricantes de equipamentos ferroviários para impedir que elas competissem entre si em projetos no exterior. E fez uma vaga promessa de “apoiar o crescimento das empresas privadas”.

Política externa. Ao longo de seu discurso, Xi descreveu a China como uma “grande potência” 26 vezes, num claro distanciamento dos dias em que os líderes de Pequim descreviam seu país como um participante pobre e modesto no exterior. “A China continuará a desempenhar o seu papel como importante e responsável país”, disse.

Segundo ele, a China está empenhada em dar apoio à cooperação internacional, à integração econômica global e ao mundo em desenvolvimento. Xi também ressaltou o que é sua marca registrada, a iniciativa do “Cinturão e da Rota da Seda”, para construir estradas, ferrovias e outros projetos de infraestrutura que consolidam a influência econômica e política chinesa.

No entanto, Xi também assumiu uma linha dura em algumas questões. No início de seu relato, ele disse considerar a construção chinesa de ilhas artificiais no Mar do Sul da China um dos destaques de seus primeiros cinco anos de governo, apesar de o fato de ter criado tensões com outros países asiáticos e com a Marinha dos EUA.

Xi advertiu que a China teve de se preparar para possíveis conflitos. Tendo reorganizado as Forças Armadas durante seu primeiro mandato, ele prometeu mais mudanças nos próximos cinco anos, incluindo maior profissionalização de oficiais e mais inovação em armamento. No meio do século, segundo ele, os militares China serão de primeira classe em todos os sentidos, embora ele não tenha dado detalhes sobre o significado disso.

“Um militar é desenvolvido para lutar”, disse Xi. “Nossos militares devem considerar a capacidade de combate como o critério a ser alcançado em todos os seus trabalhos e se concentrar em como ganhar quando for convocado.”

Taiwan e Hong Kong. Há poucos dias, fãs de futebol em Hong Kong enfureceram um grande número de habitantes da China continental ao virar de costas para a bandeira chinesa durante a execução do hino nacional antes do jogo. A demonstração de desrespeito foi o último sinal da profunda insatisfação da oposição de Pequim à democracia na antiga colônia britânica, onde existem até apelos de independência.

Em seu discurso, Xi disse que Hong Kong e a vizinha Macau, uma antiga colônia portuguesa, podem governar a si mesmas, mas só se “os patriotas desempenharem os papéis principais”. Ele também defendeu o retorno de Taiwan, uma ilha autônoma, para o controle chinês, antes de pronunciar a frase que mais aplausos recebeu em seu longo discurso: “Nunca permitiremos que qualquer pessoa, qualquer organização ou qualquer partido político, a qualquer momento ou de qualquer modo, separe qualquer parte do território chinês da China”.

Segurança. Embora a apresentação de Xi tenha descrito uma China mais confiante e envolvida no exterior, também minimizou os riscos das tensões sociais criadas em décadas de crescimento acelerado. Mesmo que Xi tenha reforçado os já rígidos controles da China sobre protestos e dissidências, advertiu que as fontes do descontentamento estavam mudando de uma forma que exigia novas respostas.

“O que enfrentamos agora é a contradição entre o desenvolvimento desequilibrado e inadequado e as necessidades cada vez maiores do povo por uma vida melhor”, disse Xi. Segundo ele, melhorar a vida das pessoas inclui reduzir a poluição, melhorar as escolas e atendimento de saúde e garantir o acesso mais justo ao Judiciário.

“Mas manter a China sob controle requer punição e recompensas”, disse Xi. O presidente já criou a Comissão de Segurança Nacional, organismo secreto para ajudar a orientar a segurança interna. “A China também promoverá mais melhorias no sistema de segurança nacional e reforçar a capacidade de segurança nacional”, disse. Para fazer isso, ele prometeu maior controle da internet, incluindo o uso da censura para “se opor e resistir a toda a variedade de pontos de vista errados”.

Nova era. Entre os muitos slogans de Xi, houve um que se destacou. Repetidamente, ele disse que a China havia entrado em uma “nova era”, expressão que também aparece no título de seu relatório. “Será uma era na qual veremos a China movendo-se para ocupar o centro do palco”, afirmou. 

Xi também deixou claro que ele era o melhor líder para guiar a China nessa nova era. Ao usar essa frase, o presidente quis mostrar que ele é para esta nova era o que líderes icônicos chineses como Mao Tsé-tung e Deng Xiaoping haviam sido em suas épocas”.

Xi também apresentou a China como modelo, dizendo que o país desenvolveu sua economia sem imitar os valores ocidentais. “Ela oferece uma nova opção para outros países e para nações que querem acelerar seu desenvolvimento, preservando a independência”, disse. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*SÃO JORNALISTAS

 

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