Ben Stansall/AFP
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Artigo: As questões pendentes que o acordo do Brexit não resolveu

Direitos de pesca, serviços financeiros e futuro de territórios do Reino Unido mostram que negociações com UE não acabaram

Adam Taylor / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2021 | 04h30

O Brexit entrou em vigor. O acordo é uma vitória do premiê Boris Johnson e estabelece uma nova relação com a União Europeia. Aprovado a toque de caixa e em meio à pandemia, ele encerra uma saga com ar de anticlímax. É improvável que os britânicos tenham notado alguma mudança, mas o Brexit trará poucos benefícios imediatos e visíveis. A seguir, alguns temas ainda sem solução. 

1. A pesca. Os direitos de pesca nas águas britânicas provoca um debate acirrado. Londres e Bruxelas estabeleceram um compromisso difícil: uma transição de cinco anos, com os europeus cedendo um quarto de seus direitos de pesca em águas britânicas, menos do que os britânicos queriam. Após o período de transição, haverá negociações anuais, com ambos os lados capazes de aplicar tarifas para compensar perdas. No Reino Unido, a indústria da pesca classificou os termos como “traição”. O setor é pequeno, mas politicamente poderoso e fará pressão por posições mais duras no futuro, colocando o governo em posição difícil. 

2. Os serviços financeiros. Londres é um centro financeiro global, com serviços que empregam mais de um milhão de pessoas e contribuem com US$ 178 bilhões para o PIB. O acordo não diz muito: é quase inteiramente focado em bens tangíveis que cruzam as fronteiras. E isso é um problema para as empresas britânicas que desejam vender serviços na Europa. Johnson admitiu que o Brexit “não foi tão longe quanto gostaríamos”, mas manteve a esperança de que acordos menores sejam alcançados com Bruxelas para garantir acesso às empresas do país.

3. O futuro da Irlanda do Norte. O Brexit evitou uma fronteira física entre Irlanda (membro da UE) e Irlanda do Norte (parte do Reino Unido). O acordo manteve os norte-irlandeses no mercado comum e garantiu a aplicação de regras europeias em seus portos. No longo prazo, porém, as mudanças podem diminuir o elo entre Irlanda do Norte e Reino Unido. 

4. Gibraltar. O futuro desse minúsculo território britânico ligado à Espanha não foi detalhado no acordo. Cerca de 15 mil espanhóis cruzaram a fronteira com Gibraltar todos os dias e a volta de uma fronteira física afetaria a economia do enclave. Em um acordo de última hora alcançado na véspera do ano-novo, antes do término do período de transição, Londres concordou em permitir a livre circulação de pessoas, o que coloca Gibraltar no espaço Schengen. A decisão também levanta questões de longo prazo sobre a soberania britânica do território. 

5. A união do reino. Irlanda do Norte e Gibraltar não são as únicas ameaças à unidade do país. O Parlamento escocês votou contra o acordo. “A história da Escócia é europeia. E essa história não termina hoje”, disse Ian Blackford, deputado do Partido Nacional da Escócia. O movimento pró-independência é antigo e os escoceses votaram contra o Brexit (por 55% a 45%), o que inflamou ainda mais o movimento. Pesquisa recente mostrou que o apoio à independência da Escócia atingiu um recorde de 58%, embora Londres não tenha dado sinais de que vá permitir um novo referendo sobre tema.

6. O fim das negociações. Esses não são os únicos problemas pendentes. Outros incluem a proteção de dados e a garantia de “igualdade de condições” entre Reino Unido e a UE, o que pode permitir a Bruxelas impor tarifas punitivas às indústrias britânicas se Londres cortar regulamentações para tornar suas exportações mais competitivas.

O acordo tem cláusulas para revisão dos termos de comércio após cinco anos, em linha com a próxima eleição britânica, o que dará um viés político à relação por algum tempo. Em teoria, o Reino Unido pode voltar a aderir à UE – a maioria das pesquisas hoje coloca os favoráveis à união vários pontos porcentuais à frente dos que querem sair –, mas o custo político seria alto. Londres precisaria se candidatar novamente e começar uma outra maratona de negociações. 

*É COLUNISTA E ESCREVE SOBRE  RELAÇÕES EXTERIORES

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