Photo by SAEED KHAN / AFP
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Artigo: Ausência de Trump nas cúpulas asiáticas é sinal de recuo americano

Nas principais cúpulas regionais da Ásia, todos os principais líderes do mundo estão presentes, menos Donald Trump

Fareed Zakaria, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2018 | 05h00

NOVA YORK – É fácil ter a atenção desviada pelo circo da presidência de Donald Trump. Mas qual o efeito maior disso? Para uma resposta a essa pergunta examinemos as três reuniões ocorrendo nesta semana do outro lado do planeta.

Com a participação de todos os grandes países asiáticos, os encontros de cúpula da ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) e do Leste Asiático em Cingapura, e a conferência da APEC (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) em Papua Guiné, são particularmente importantes porque os países da região estão tentando avançar em meio à mudança de poder excepcional e inusitada que vem ocorrendo: a ascensão da China. Por isso é crucial que eles entendam o papel da atual superpotência do mundo, os Estados Unidos.

Mas o presidente dos Estados Unidos está desaparecido. Donald Trump decidiu não ir às reuniões e enviou o vice-presidente Mike Pence em seu lugar. Mas Xi Jinping, da China, Vladimir Putin, da Rússia, Narendra Modi, da Índia, todos estão ou em Cingapura ou em Papua Nova Guiné, ao passo que Shinzo Abe, do Japão e Moon Jae-in, da Coreia do Sul, participam de ambos os encontros. Na verdade todos, exceto Donald Trump, estarão presentes.

Uma queixa persistente dos países asiáticos tem sido que embora os Estados Unidos estejam preocupados com a ascensão da China – como afirmou Pence em seu discurso, os americanos estão deixando o campo aberto para Pequim. O país não está empenhado em participar das reuniões, elaborar a pauta de discussões, consolidar suas alianças e aprofundar seus vínculos na região. A falta de interesse de Trump só alimenta esse temor.

Estamos vendo o efeito Trump no recuo no comércio na Ásia. Os dois mecanismos para uma maior prosperidade e cooperação que caminham para uma finalização na região são a Parceria Transpacífico (TPP) e a Parceria Econômica Ampla Regional (RECEP). Trump retirou os Estados Unidos da TPP, minando o objetivos do pacto de dar aos países asiáticos uma alternativa ao sistema dominado pelos chineses. A RECEP, que inclui a China, também significava abrir as economias asiáticas e aumentar o comércio e os contatos na região. Mas depois de 24 rodadas de negociação, o ímpeto perdeu força, talvez até tenha desaparecido.

A Índia procura proteger seu mercado das importações chinesas, outros países tentam manter os setores de serviços da Índia distantes, e todos podem se consolar de que tudo isto é uma repercussão do que a superpotência mundial, os Estados Unidos, está fazendo no caso de suas próprias negociações comerciais.

Já escrevi isto antes e continuo achando que o governo Trump tem um argumento válido quando fala do abuso do sistema de comércio por parte da China e está certo em manter uma posição dura com Pequim. Mas está cometendo um grande erro em sua oposição instintiva ao comércio, oposição reiteradamente afirmada pelo presidente: “Se não negociamos poupamos muito dinheiro”, disse Trump em um discurso em julho, declaração que é simplesmente falsa.

Com base em cálculos de Gary Hufbauer e Lucy Lu, do Peterson Institute for Internacional Economics, a expansão do comércio desde 1950 aumentou o PIB Produto Interno Bruto dos Estados Unidos para US$ 2,1 trilhões em 2016. Isto equivale a um ganho de US$ 7.014 por pessoa, ou US$ 18.131 por família.

O fato de o governo da Índia proteger seus mercados e elevar tarifas é triste no caso de um país que parece ter esquecido sua própria história. A Índia tem décadas de experiência com tarifas altas, projetadas para dar impulso à sua indústria doméstica. O resultado disto foram empresas não competitivas, produtos de má qualidade, uma corrupção generalizada e uma estagnação econômica.

Então, no início dos anos 1990, o país reduziu as tarifas e a burocracia e em três décadas emergiu como a segunda grande economia com o mais rápido crescimento. Será que o país deseja tornar o socialismo indiano grande novamente?

Existem algumas ideias que foram inteiramente testadas e comprovadas, como a noção de que o comércio aumenta a renda e o padrão de vida de um país. E também tem o efeito de criar hábitos de cooperação, e mesmo a paz, como ocorreu na Europa e poderá ajudar no caso da Ásia. Líderes americanos compreenderam isto há décadas e ainda hoje.

Em 1988 Ronald Reagan alertou: “devemos ter cuidado com os demagogos que estão prontos a declarar uma guerra comercial contra nossos amigos – debilitando nossa economia, nossa segurança nacional e todo o mundo livre enquanto cinicamente levantam a bandeira americana. A expansão da economia internacional não é uma invasão estrangeira; é um triunfo americano, que batalhamos para alcançar, e é algo fundamental na nossa visão de um mundo de liberdade pacífico e próspero”./TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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