Lorne Campbell / Reuters
Lorne Campbell / Reuters

Artigo: Boris Johnson vai acelerar o declínio da Europa

Assistimos ao encolhimento de um grupo de nações que dominaram a cena internacional e o Brexit vai aproximar essa derrocada

Fareed Zakaria / The Washington Post *, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2019 | 03h00

O Reino Unido tem um novo primeiro-ministro, e Donald Trump o aprova. “Ele é durão e esperto”, disse Trump de Boris Johnson. “Estão chamando-o de ‘Trump britânico’ e o povo acha isso bom. O pessoal lá fora gosta de mim.” Na verdade, segundo a empresa YouGov, apenas 21% dos britânicos têm uma visão favorável de Trump, enquanto 67% o veem de forma negativa (Barack Obama tinha 72% de aprovação entre os britânicos). Mas o ponto principal é que a chegada de Johnson ao governo é ruim para o Reino Unido, para a Europa e para os EUA.

Johnson assegurou na Câmara dos Comuns que o Reino Unido estará fora da União Europeia em menos de 100 dias. Como ele pretende administrar essa saída acelerada sem profundas mudanças na economia continua sendo um mistério (quase metade das exportações britânicas vão para a UE). O que está claro é que, se houver mesmo o Brexit, ele vai acelerar o declínio da Europa como ator global. 

O Reino Unido sempre foi uma força organizacional na Europa. Quando o secretário de Estado dos EUA George Marshall anunciou um plano para ajudar a Europa a se reconstruir após a 2.ª Guerra, foi o governo britânico que assumiu a liderança em responder ao plano e formar um coalizão de países que acabaram aceitando o Plano Marshall e trabalharam com os EUA para fazer dele um sucesso. Londres também liderou os esforços para organizar a coalizão que se tornaria a Otan, incluindo a controvertida decisão de receber a Alemanha na aliança, em 1955. 

O Reino Unido demorou um pouco para entrar na Comunidade Econômica Europeia, mas uma vez que se juntou ao bloco, em 1973, tornou-se talvez seu membro mais influente. O que frequentemente se esquece nas discussões sobre regulamentos e regras da UE é que seu projeto central foi por décadas a criação de um mercado único, que harmonizaria impostos e eliminaria tarifas e barreiras. Essa visão foi articulada e impulsionada agressivamente pela premiê britânica pró-livre-mercado Margaret Thatcher. O plano foi um sucesso em grande medida. 

O Reino Unido também defendeu consistentemente uma Europa de Estados-nações, não um super-Estado europeu. E, apesar do surgimento recente de uma retórica em contrário, é basicamente o que existe. Bruxelas tem um orçamento anual de cerca de US$ 185 bilhões. Com um PIB grosseiramente comparável ao do bloco europeu, os EUA gastam mais de US$ 4 trilhões anuais. Quanto a burocratas, o ex-premiê Nick Clegg uma vez observou que o condado britânico de Derbyshire tinha tantos burocratas quanto Bruxelas. 

E, na medida em que havia um movimento entre alguns líderes europeus para se criar uma Europa mais centralizada e unificada, o projeto entrou em grande parte em colapso. Jan-Werner Müller, de Princeton, argumenta que o projeto foi substituído pela “Breurope”, uma concepção de União Europeia muito mais próxima daquela articulada por Londres. Müller aponta para a ironia de que o Reino Unido quer deixar a UE no momento em que a visão britânica de Europa está prevalecendo. 

O ex-embaixador de Washington na UE Stuart Eizenstat explica que o Reino Unido sempre foi o aliado mais próximo dos EUA em assuntos relevantes na Europa. Ele postou no think tank Atlantic Council: “Com o Brexit, os EUA perderão um grande apoiador numa série de assuntos comerciais e regulatórios nos quais a abordagem pró-livre-mercado do Reino Unido se aproxima mais da americana que a da maioria dos países-membros da UE. Isso inclui sanções americanas a regimes como o do Irã, da Rússia e outros; privacidade de dados; contraterrorismo e segurança nacional”. 

O Reino Unido está pronto para se retirar da UE num momento em que Europa está se retirando do mundo. Antigos líderes como Thatcher, Mitterrand, Delors e Kohl acreditavam que a Europa tinha um papel fundamental a desempenhar em assuntos globais. Eles construíram o mercado único, administraram o colapso do império soviético, acolheram os países da Europa Oriental e Central e projetaram valores ocidentais no novo mundo pós-Guerra Fria.

Hoje, líderes europeus estão sendo consumidos por problemas econômicos do continente, surgimento de políticos populistas e retrocessos antieuropeus. A Alemanha de Angela Merkel está sem compasso de espera. A França de Emmanuel Macron quer uma Europa forte, mas está atormentada por problemas domésticos. E o Reino Unido, antes a voz da energia e do ativismo no cenário mundial, está ocupado preparando sua saída. 

O principal desafio para a estabilidade e a ordem globais é óbvio: o fortalecimento de potências como Rússia e China. Em tal mundo, a Europa, que tem uma economia inferior apenas à dos EUA, poderia desempenhar um papel crucial em ajudar a preservar as regras, normas e valores que norteiam o mundo desde 1945. Mas, a Europa terá de controlar seu poder e agir com propósito. Mas, na verdade, está pendendo para a direção oposta. Assistimos ao encolhimento de um grupo de nações que definiram e dominaram a cena internacional desde o século 17. O Brexit vai apenas acelerar essa triste derrocada. / Tradução de Roberto Muniz

* É colunista

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.