REUTERS/Fabrizio Bensch
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Artigo: Coisas que o G-20 não resolverá

O G-20 é um grupo com mais conflitos internos do que pontos de acordo, o que torna a cúpula um campo minado para a chanceler Angela Merkel

Leonid Bershidky / Bloomberg, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2017 | 05h00

O G-20 é um grupo com mais conflitos internos do que pontos de acordo, o que torna a cúpula um campo minado para a chanceler Angela Merkel. O que não esperar:

1. Avanço no campo do comércio

Apesar de Merkel ter afirmado que seu objetivo é que o G-20 “indique claramente estar a favor do livre mercado”, isso não será possível por causa de Donald Trump, firmemente comprometido com as promessas feitas na sua campanha. Ele questionou o superávit comercial da Alemanha com os EUA. 

A grande notícia para a Alemanha e outras nações europeias vem de Bruxelas, não de Hamburgo: o premiê do Japão, Shinzo Abe, visitou a sede da UE ontem, quando assinou um acordo que soluciona a maior parte dos problemas pendentes com vistas a um enorme acordo comercial entre Japão e União Europeia. As negociações que se arrastavam havia anos se aceleraram depois que Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífico. 

2. Avanço na questão da mudança climática

Quando os EUA se retiraram do Acordo de Paris, outros países importantes reafirmaram seu compromisso, mas sem Trump é difícil imaginar que comunicado a respeito os líderes do G-20 conseguirão elaborar juntos. Não há sentido deixar registrado um desacordo claro na declaração final.

3. Algo substancial do encontro entre Trump e Putin.

Trump vai a Hamburgo após passar pela Polônia, um dos poucos países europeus onde podia esperar uma recepção calorosa. Isso porque os governantes nacionalistas poloneses chegaram ao poder usando retórica similar. Os poloneses, em troca de Trump não se mostrar tão simpático com Putin, prometeram adquirir o sistema de defesa contra mísseis Patriot, fabricado nos EUA e ainda firmar um acordo de longo prazo de fornecimento de gás natural liquefeito para não mais dependerem das importações da Rússia. 

Além disso, Trump precisará ter cuidado para não parecer muito brando com a Rússia por causa das críticas dentro do seu país. Putin poderá oferecer a Trump algum incentivo nos conflitos com a Europa envolvendo o clima e o comércio: uma disputa entre EUA e UE é um dos objetivos mais desejados de Putin.

4. Questão da imigração.

O assunto está na agenda da reunião, mas será difícil um acordo comum diante da posição anti-imigração de Trump, os requisitos do Brexit para a premiê britânica, Theresa May, a aflição do premiê italiano, Paolo Gentiloni, cujo país está com problemas para administrar o fluxo de migrantes africanos que atravessam o Mediterrâneo, e a acrimônia do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que acha que a UE não deu o valor devido à Turquia por sua ajuda na solução da crise dos refugiados entre 2015 e 2016. 

5. A emergência da Europa como novo líder global.

Os europeus assumiram uma posição firme contra Trump e ao mesmo tempo mantêm uma pressão sobre Putin. Mas os líderes não ocidentais têm a própria agenda. Xi Jinping, da China, está no mesmo campo da UE nas questões do comércio e da mudança climática e Trump está insatisfeito com o que considera esforços insuficientes de Xi para dissuadir a Coreia do Norte de levar adiante seu programa nuclear. 

A declaração final provavelmente estará repleta de frases de boas intenções sobre a saúde global, digitalização, igualdade de gênero, o desenvolvimento na África e barreiras contra o financiamento do terrorismo. Mas num mundo cada vez mais multipolar e moldado por acordos bilaterais e configurações multilaterais em constante mudança, a lista de assuntos sobre os quais os líderes podem concordar diminui. 

Nascido da crise financeira global, que exigiu uma ação concertada dos líderes globais, o formato do G-20 vem perdendo relevância, sendo útil como um fórum conveniente para reuniões bilaterais, como a de Putin e Trump. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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