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Kevin Dietsch/EFE/EPA/Pool
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Artigo: Com coronavírus, Trump encara uma nova realidade

Sob o melhor cenário, presidente verá mais americanos morrerem de covid-19 do que seus antecessores viram nas guerras da Coreia e do Vietnã juntas

Peter Baker*, The New York Times

03 de abril de 2020 | 06h00

Cinco semanas atrás, quando havia 60 casos de coronavírus nos EUA, Donald Trump expressou pouco alarme. “Isso é uma gripe”, disse. Ele ainda a comparava a uma gripe comum até semana passada. Mas, na terça-feira, mais de 187 mil casos haviam sido registrados e mais americanos haviam morrido na pandemia do que nos ataques de 11 de setembro de 2001. Então, a avaliação do presidente mudou. “Não é gripe”, afirmou. “É cruel.”

Quando o presidente apareceu na sala de reuniões da Casa Branca, ao lado de gráficos que mostravam a projeção de mortes, ele estava se deparando com uma realidade que há muito se recusava a aceitar. Os gráficos previam que de 100 mil a 240 mil americanos morreriam mesmo com o país cumprindo as restrições sociais que sufocariam a economia e empobreceriam milhões. 

Trump desistiu dos planos de reabrir o país até a Páscoa, mas os números não eram novos nem surpreendentes. Especialistas alertavam para uma possibilidade como essa há semanas. “Quero que os americanos estejam preparados para os dias difíceis que estão pela frente”, disse o presidente. “Vamos passar por duas semanas difíceis.” 

Sob o melhor cenário, Trump verá mais americanos morrerem de coronavírus nas próximas semanas do que os presidentes Harry Truman, Dwight Eisenhower, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon viram morrer nas guerras da Coreia e do Vietnã juntas. A estimativa mais otimista diz que morrerão quase tantos americanos quanto na 1.º Guerra sob o presidente Woodrow Wilson e 14 vezes mais americanos que nos conflitos de Iraque e Afeganistão juntos, sob George W. Bush e Barack Obama. É um dado assustador para qualquer um.

Uma pandemia não é uma guerra, é claro. Trump não teve escolha. No entanto, ele será julgado pelo modo como respondeu a ela – e as críticas têm sido muitas. Agora, o presidente disse que minimizou a seriedade da ameaça porque tinha de tranquilizar a população. “Queria dar esperança às pessoas”, disse. Apesar das críticas, ele nega que tenha subestimado o problema e aponta para sua decisão, em janeiro, de limitar as viagens da China, que ocorreu depois que as companhias aéreas já estavam cortando voos por conta própria. Especialistas como Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, dizem que essa decisão atrasou a chegada do vírus aos EUA.

Trump, porém, cita isso como se fosse a única ação necessária, quando especialistas disseram que o benefício de restringir viagens foi diminuído porque os EUA não usaram o tempo que tinham para acelerar os testes. O presidente não explicou por que os exames estão lentos, por que esperou para cancelar grandes eventos, fechar escolas e a limitar reuniões públicas, no momento em que os governadores já vinham fazendo isso. Ele também não explicou por que declarou que o país poderia reabrir já na Páscoa, apenas para mudar de ideia depois. 

A pandemia de 2020 parece ser tão mortal quanto foram os anos entre 1918 e 1920, quando 675 mil americanos morreram de causas que misturam a gripe espanhola com a 1.ª Guerra. Outra pandemia, em 1957, matou cerca de 116 mil nos EUA. E outra, em 1968, matou 100 mil. O vírus H1N1, em 2009, matou apenas 12 mil. A gripe comum causa entre 12 mil e 61 mil mortes anualmente desde 2010.

Trump vem intensificando os esforços nas últimas semanas, expandindo testes e cooperando com governadores para solucionar a falta de respiradores, máscaras e outros equipamentos. Ele enviou navios, médicos e engenheiros do Exército para ajudar, forçou a General Motors a fabricar equipamentos e ampliou as diretrizes de distanciamento social até o fim de abril. 

Durante grande parte do briefing de 2 horas na terça-feira, a mais longa aparição pública de sua presidência, Trump adotou uma abordagem sombria. Mas, quando terminou, ele voltou a reclamar da “farsa do impeachment” e renovou seus ataques ao ex-diretor do FBI James Comey e ao ex-vice-diretor Andrew McCabe. 

*É JORNALISTA

 

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