Artigo: Como prevenir novas chacinas

Alguns criminosos sempre conseguirão obter armas, especialmente num país como os Estados Unidos, inundado por cerca de 300 milhões de armas de fogo

Nicolas Kristof / The New York Times , O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2017 | 05h00

Depois do terrível assassinato em massa de Las Vegas, o impulso dos políticos americanos será o de colocar bandeiras a meio pau, sugerir momentos de silêncio e tomar a dianteira em um luto nacional. No entanto, o que precisamos mais que tudo não é de lamentações, mas sim de ação para reduzir a quantidade de armas nos Estados Unidos.

Nós simplesmente não precisamos aceitar esse tipo de massacre. Quando a Austrália foi vítima de um assassinato em massa em 1996, o país uniu-se em torno de leis mais rígidas para armas de fogo. Como resultado, a taxa de homicídios por armas caiu para quase a metade e o suicídio por armas caiu 50%, segundo o Journal of Public Health Policy.

Céticos dirão que não existem soluções mágicas e as leis não poderão evitar as carnificinas. Até certo ponto, eles estão certos. Alguns criminosos sempre conseguirão obter armas, especialmente num país como os Estados Unidos, inundado por cerca de 300 milhões de armas de fogo. Nós sempre temos a probabilidade de ter taxas de mortes causadas por armas mais elevadas do que a Europa.

No entanto, a escala é assombrosa. Desde 1970, mais americanos morreram por armas (incluindo suicídios, assassinatos e acidentes) do que a soma total de todos os americanos que morreram em todas as guerras da história americana, desde a independência. Todos os dias, 92 americanos morrem por armas e as crianças americanas têm 14 vezes maior probabilidade de morrer por arma de fogo do que crianças de outros países desenvolvidos, segundo David Hemenway, da Universidade Harvard.

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Então, como não existem soluções mágicas à disposição, eis alguns passos que poderíamos adotar que iriam, coletivamente, fazer uma diferença:

Antecedentes. Impor uma checagem universal para qualquer pessoa que comprar uma arma. Isso porque quatro entre cinco americanos apoiam essa medida, para impedir que criminosos ou terroristas tenham acesso a armas de fogo.

Idade. Impor uma idade limite de 21 anos para a compra de armas. Isso já é lei para aquisição de revólveres ou pistolas em muitos Estados e reflete a mesma lógica da legislação sobre a compra de bebida alcoólica.

Violência doméstica. Forçar o cumprimento da proibição da posse de armas de fogo por pessoa sujeita a uma ordem de proteção por violência doméstica. Esse é o momento em que as pessoas estão perturbadas e propensas à violência contra os seus ex-companheiros.

Controle. Limitar a compra de armas, por qualquer pessoa, a não mais do que duas por mês e reforçar as normas de compras por terceiros, que adquirem armas para criminosos. Tornar os números de série mais difíceis de serem removidos.

Rastreamento. Adotar a tecnologia de identificação balística de cartuchos, de forma que se possa rastrear a arma da qual foram disparados, útil na solução e crimes envolvendo armas. Além disso, investir na compra de “armas inteligentes” pela polícia e pelos militares dos EUA, para promover seu uso. Tais armas exigem um PIN (um número pessoal de identificação) ou só podem ser disparadas quando estiverem perto de um determinado bracelete ou outro equipamento, de forma que crianças não poderão fazer mau uso delas e elas sejam menos vulneráveis a roubo. A indústria de armas fez uma arma à prova de crianças no século 19, mas agora resiste às armas inteligentes.

Armazenagem. Exigir que as armas sejam bem guardadas, para reduzir roubo, suicídio e acidentes com crianças.

Ciência. Investir em pesquisa para ver quais intervenções serão mais eficazes na redução de mortes por armas de fogo. Sabemos, por exemplo, que álcool e armas não devem se misturar, mas não sabemos exatamente quais os tipos de lei seriam mais eficientes para reduzir o número de mortes. Investimentos semelhantes na redução de outros tipos de mortes acidentais foram bastante eficazes.

Todos esses passos são modestos e não posso garantir que tenham algum efeito extraordinário. No entanto, especialistas em saúde pública acreditam ser plausível que uma série de medidas de segurança bem elaboradas como estas possam reduzir as mortes por armas de fogo em um terço – ou mais de 10 mil por ano. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

É COLUNISTA

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