REUTERS/Joshua Roberts
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Artigo: Como responder à política externa de Donald Trump

Países latino-americanos têm de assumir a tarefa de fortalecer organizações regionais e atuar contra políticas inaceitáveis

Abraham F. Lowenthal *, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2017 | 03h00

Donald Trump já é presidente dos Estados Unidos há mais de oito meses. Raramente, se é que já aconteceu, uma mudança na liderança dos EUA provocou inquietação tão grande e imediata nas Américas e no mundo.

As preocupações mais persistentes são sobre suas características pessoais – suas convicções arraigadas, sua maneira de tomar decisões e se comunicar e, especialmente, sua tendência (proposital ou inadvertida) de ignorar ou fabricar evidências e incentivar a polarização. De um modo familiar aos que conhecem o populismo, Trump solapa a tolerância, recruta adeptos apaixonados e desacredita centros estabelecidos de poder. São tendências tóxicas e perigosas.

No campo da política externa, o latido de Trump vem sendo mais forte que a mordida. Com frequência ele reverte posições dúbias que assumiu como candidato: no acordo nuclear com o Irã, na “manipulação de moeda” pela China, na “obsolescência” da Otan, na mudança da embaixada americana em Israel para Jerusalém e na colaboração próxima com a Rússia de Putin. Aparentemente, ele também recuou de várias posições extremistas: rejeitar totalmente o Acordo de Livre Comércio para a América do Norte (Nafta), reverter políticas de imigração e insistir em que o México pague pelo anunciado muro na fronteira. Trump vem fazendo declarações ameaçadoras sobre usar a força contra a Coreia do Norte, adotar uma “opção militar” contra a Venezuela e desencadear uma “guerra comercial” contra a China – sem dar provas até agora de que essas ameaças não passam de mera fanfarronice.

É difícil saber por que a retórica de Trump difere tanto das políticas efetivamente adotadas por seu governo. Quanto nessas diferenças é intencional, um método em sua loucura? Quanto se deve a impedimentos legais, equilíbrio institucional, opinião pública, imprensa e restrições internacionais? Estaria Trump usando táticas de negociação que empregou com sucesso em suas transações imobiliárias – táticas que não necessariamente funcionam em relações internacionais? O que pode ser atribuído a conflitos profundos entre membros de sua equipe? Quanto da aparente incoerência no governo de Trump seria resolvido com mudanças de pessoal e maior clareza na comunicação e na definição de autoridade? O que mudaria se Trump aprendesse a controlar seus impulsos e a confiar em declarações preparadas por funcionários competentes?

A verdade é que, no momento, ninguém pode responder a essas perguntas. A administração de Trump é um pudim que ainda não tomou consistência, com ingredientes dosados por vários cozinheiros, sem orientação de um chef.

Nesse contexto desconcertante, a melhor atitude a tomar por todos os que estão assustados com os perigos que a atual Casa Branca representa é reduzir o fascínio pela personalidade de Trump e, em vez disso, concentrar-se estrategicamente em identificar e responder a tendências, ameaças e objetivos ocultos. Isso é necessário para administrar os perigos, reduzi-los e avançar – apesar de Trump – rumo a objetivos comuns, levando-se em conta tendências fundamentais. Pode não ser uma abordagem tão satisfatória quanto condenar Trump e os que o apoiam, mas condenações grandiloquentes não mudam mentes nem desfazem decisões. Não será fácil estabelecer e aplicar estratégias de controle de danos que ponham limites à administração Trump: elas envolvem necessariamente esforços coordenados de muitos participantes com interesses e prioridades diversos atuando em diferentes foros e instâncias, sem coordenação central.

O primeiro passo é focar em desafios estruturais independentes da presidência de Trump. A ordem mundial conhecida – política e econômica – está ruindo. Transformações demográficas e tecnológicas estão remodelando a economia global, afetando quem ganha e quem perde. Mudanças tecnológicas, demográficas, sociais, culturais, políticas e institucionais, todas interconectadas, estão em andamento, reforçadas por novos atores e formas de poder internacional. Essas tendências disruptivas, mais do que Trump, requerem nossa atenção.

Uma prioridade urgente deveriam ser as tentativas unilaterais e, especialmente, multilaterais de controle de danos. Países sul-americanos, especialmente Brasil e Argentina, podem fazer muito para fortalecer o papel de organizações regionais e globais na redução de conflitos violentos, detenção de corrida armamentista, incentivo a iniciativas pacificadoras e administração de fluxos internacionais financeiros e migratórios. Esses países podem elaborar respostas a problemas como segurança alimentar, danos ambientais, doenças contagiosas e narcotráfico. Em todas essas áreas, eles podem substituir a reticência e responsabilidade americana, assumindo um papel mais abrangente.

Um desafio para países latino-americanos, bem como para as pessoas que se opõem nos EUA às abordagens de Trump, é desenvolver políticas e programas que respondam aos problemas que levaram à eleição de Trump e outros populistas. Outro desafio é um engajamento mais positivo com o governo e a sociedade civil dos EUA, destacando temas e avançando onde for possível. Finalmente, países latino-americanos deveriam trabalhar juntos para se opor a políticas inaceitáveis dos EUA em vários campos, caso a caso. É hora de os maiores países sul-americanos participarem mais das decisões internacionais.

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* PROFESSOR NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, É SENIOR FELLOW NA BROOKINGS INSTITUTION. FOI DIRETOR FUNDADOR DO WILSON CENTER’S LATIN AMERICAN PROGRAM E DO DIÁLOGO INTERAMERICANO

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