Martin Speechley/ NYPD via AP
Martin Speechley/ NYPD via AP

Artigo: complacência política nutre extremismo islâmico

Apesar das derrotas militares do Estado Islâmico, sua ideologia se propaga

Fareed Zakaria / The Washington Post*, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2017 | 05h00

O ataque terrorista em Nova York na semana passada foi um incidente isolado, perpetrado por um homem desequilibrado,<que não deve levar a generalizações. 

Nos 16 anos decorridos desde os atentados de 11 de setembro de 2001 a cidade esteve extraordinariamente a salvo de grupos ou indivíduos jihadistas. Mas, conversando com autoridades em Cingapura,importante centro global a 16 mil quilômetros de distância dos Estados Unidos, as conclusões a que cheguei são preocupantes.

“O ataque de Nova York é uma maneira de nos lembrar que embora o Estado Islâmico esteja sendo derrotado militarmente, a ameaça ideológica do islamismo radical vem se propagando”, disse o ministro do Interior de Cingapura, K. Sahnmugam. “A linha de tendência se move na direção errada.”

A batalha militar contra os grupos jihadistas em lugares como Síria e Afeganistão é árdua, mas tem favorecido os Estados Unidos e seus aliados. Afinal é uma luta entre forças militares combinadas de alguns dos mais poderosos governos do mundo contra um pequeno bando de guerrilheiros.

Por outro lado, o desafio ideológico representado pelo EI é muito mais difícil de combater. O grupo terrorista e outros similares a ele têm conseguido difundir suas ideias, recrutar homens e mulheres e se infiltrar nos países em todo o globo. As nações ocidentais continuam vulneráveis aos lobos solitários ocasionais, mas os novos terrenos férteis do radicalismo são as sociedades muçulmanas outrora moderadas na Ásia Central, Meridional e do Sudeste.

Veja o caso da Indonésia, o mais populoso país muçulmano do mundo, que sempre foi considerado um baluarte do islamismo moderado. Este ano o governador de Jacarta, a capital do país, não conseguiu ser reeleito uma vez que muçulmanos de linha mais dura o retrataram com um líder inadequado para a função por ser cristão. 

Pior, ele foi preso e condenado por uma acusação injusta e duvidosa de blasfêmia. Em meio à onda crescente de políticos islamistas, o presidente moderado da Indonésia e suas organizações islâmicas “moderadas” estabelecidas, não foram capazes defender as tradições de tolerância e multiculturalismo do país.É o caso também de Bangladesh, outro país com um passado resolutamente secular, onde vivem quase 150 milhões de muçulmanos. Fundado como uma nação separada do Paquistão por razões não religiosas, a cultura e a política de Bangladesh ficaram cada vez mais radicais na última década. Ateus e intelectuais têm sido perseguidos e até assassinado, novas leis dispondo sobre blasfêmia foram promulgadas e ataques terroristas resultaram em dezenas de mortos.

Por que isto vem ocorrendo? Há muitas explicações. Pobreza, dificuldades econômicas e mudanças geram inquietação. “As pessoas estão indignadas com a corrupção e a incompetência dos políticos. E são facilmente seduzidas pela ideia de que o islamismo é a resposta, embora não saibam o que isso significa”, explicou-me um político de Cingapura. Assim, os líderes locais firmam alianças com clérigos e dão espaço para os extremistas, em busca de votos. Essa complacência ajudou a nutrir o câncer do extremismo islâmico.

No Sudeste Asiático, quase todos os observadores com quem conversei acham que existe outra causa crucial – dinheiro e ideologia exportados do Oriente Médio, especialmente da Arábia Saudita. Uma autoridade de Cingapura  me  disse: “viaje pela Ásia e você verá quantas mesquitas e madraças foram construídas nos últimos 30 anos. São modernas, limpas, com ar-condicionado e bem equipadas. E da seita Wahabi (versão puritana do Islamismo da Arábia Saudita). Recentemente foi noticiado que a Arábia Saudita planeja contribuir com quase US$ 1 bilhão para a construção de 560 mesquitas em Bangladesh. O governo saudita negou, mas fontes em Bangladesh me disseram que é verdade.

Como reverter essa tendência? Shanmugam, de Cingapura, diz que a população da Cidade-Estado 15% são muçulmanos  –<WC1> permaneceu relativamente moderada porque Estado e sociedade se trabalham firmemente em prol da integração. “Temos tolerância zero no tocante a qualquer tipo de militância, mas também procuramos garantir que os muçulmanos não se sintam marginalizados”, afirmou. 

Cingapura habitualmente figura nos primeiros lugares nos rankings por sua transparência, baixos níveis de corrupção e o Estado de Direito. Sua economia propicia oportunidades para a maioria.

A Ásia continua a prosperar, mas também vem avançando ali o radicalismo islâmico. A tendência só pode ser revertida por uma melhor governança e melhores políticas – por líderes que não sejam corruptos, mais competentes e dispostos a fazer frente aos clérigos e extremistas.

O novo príncipe da Arábia Saudita falou na semana passada em levar seu reino na direção de um “islamismo moderado”. Muitos riram da sua declaração, qualificando-a de estratégia de relações públicas e apontando para o domínio firme do establishment religioso ultraortodoxo. Uma melhor tática seria estimular o príncipe a cumprir o que disse e exortá-lo a adotar medidas concretas.

Se a Arábia Saudita iniciar uma reforma religiosa no país, esta será de longe a grande vitória contra o Islã radical, maior do que todos os avanços no campo de batalha até agora. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA

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