AP /Bebeto Matthews
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Artigo: Cynthia Nixon pode salvar os democratas de si mesmos

Conhecida por seu papel na série ‘Sex and the City’, ativista é pré-candidata ao governo de Nova York com plataforma de esquerda

SARAH LEONARD / THE NEW YORK TIMES*, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2018 | 05h00

Depois de Hillary Clinton perder a eleição para a presidência americana, em 2016, para Donald Trump e de Bernie Sanders mostrar força nas primárias, muitos no Partido Democrata captaram o alerta: o partido precisa se voltar para a esquerda. Mas sabem quem quer fazer isso? Andrew Cuomo, governador de Nova York. 

Nos últimos dois anos, Cuomo – de olho na presidência do país – passou de conservador a populista de esquerda. No ano passado, após reunir-se com Sanders, ele chegou a anunciar um plano de “faculdade grátis” (para surpresa de ninguém, o projeto mostrou-se cheio de brechas nada progressistas). 

A verdade é que o governador usa sua nova identidade progressista como um terno barato no qual sobra ou falta pano nos lugares errados. A boa notícia é que Cuomo, apesar de sua ambição, provavelmente tem poucas chances de conseguir a indicação para disputar a Casa Branca. 

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Mas isso não significa que ele não mereça enfrentar um forte desafio da esquerda. Se ativistas conseguirem impedir Cuomo de avançar para o palco nacional em 2020, estaremos mandando aos democratas uma mensagem que eles precisam ouvir. Devemos levar ao centro da campanha eleitoral para o governo de Nova York temas que interessam à classe operária do Estado. 

Cynthia Nixon está fazendo exatamente isso. No mês passado, ela – defensora do ensino público e conhecida principalmente por seu papel na série Sex and the City –, anunciou que desafiará Cuomo nas primárias estaduais. Sua plataforma inclui maior controle dos aluguéis, mais dinheiro para escolas públicas e o fim do encarceramento em massa. A esquerda deve apoiá-la. 

De certo modo, é uma disputa desconfortável para muitos de nós. Precisamos mesmo nos proteger atrás de alguém rico e famoso? A resposta é sim. Para quem não acompanha a novela política do Estado de Nova York, aí vai uma rápida recapitulação. 

Cuomo foi eleito em 2010. Em seu primeiro mandato, se posicionou como centrista, impulsionando escolas subsidiadas. Em 2013, destacou-se ao formar uma comissão para investigar corrupção, desativando-a quando as investigações se aproximaram dele e de seus aliados próximos – suas campanhas foram financiadas por doações dos setores imobiliário e financeiro. 

Nas primárias estaduais de 2014, ele foi desafiado por Zephyr Teachout, ativista do movimento Occupy Wall Street e professora de direito que se candidatou com plataforma anticorrupção. Zephyr conseguiu um terço dos votos, mas perdeu em parte porque seu aliado político mais natural, o Partido das Famílias Trabalhadoras (WFP, em inglês), que frequentemente apoia desafiantes esquerdistas do establishment democrata, foi perseguido por Cuomo por apoiá-la. 

No segundo mandato de Cuomo, os progressistas tiveram algum sucesso. No ano passado, ele assinou uma lei patrocinada pelo WFP aumentando o salário mínimo para US$ 15 por hora. O sindicato dos professores também o pressionou a recuar no caso das escolas subsidiadas. Entretanto, tudo que Cuomo fez de progressista foi sob pressão de ativistas que o ameaçavam eleitoralmente pela esquerda. 

Entre os que o pressionaram está Cynthia Nixon. Ela trabalhou por muitos anos com a Aliança para a Educação de Qualidade, um grupo de defesa da escola pública apoiado pelo sindicato dos professores. Cynthia começou a se envolver com a polítca quando o então prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, propôs cortes orçamentários para a escola pública, no início dos anos 2000. Sua primeira prisão ocorreu do lado de fora da prefeitura, em 2002. Desde então, ela se tornou uma incansável defensora do ensino público, com especial foco no combate à segregação. 

Cynthia vem adotando uma abordagem de esquerda semelhante em sua campanha pelo governo. Ela anunciou sua candidatura em Brownsville, um dos bairros mais pobres do Brooklyn. Cynthia defende a legalização da maconha, o financiamento unificado para o sistema de saúde e, seguindo Sanders, o aumento de impostos para os ricos. 

Mas ela investiu também em áreas que Sanders não conseguiu atingir: abordou diretamente o racismo, especialmente no que se refere a disparidades educacionais e habitacionais. Cynthia também critica o sexismo de Cuomo – ele inventou na última eleição um Partido da Igualdade Feminina, embora tenha se recusado a impulsionar uma lei que daria à população do Estado o direito de abortar, caso a decisão na qual a Suprema Corte reconhece o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez, seja revogada.

 

Embora críticos de Cynthia digam que ela só tem força entre os eleitores da cidade de Nova York, há boas razões para se acreditar que terá apoio em outras partes. Em Brownsville, ela se referiu a uma “tirania dos locadores” de imóveis, tema de destaque não apenas no Brooklyn. Lugares como Syracuse também sofrem uma severa crise de moradia. Além disso, até 2016, o número de sem-teto no Estado governado por Cuomo havia aumentado em 40%. Igualmente, a educação é um tema candente, embora a maior parte do ativismo de Cynthia pelo ensino público tenha por base Nova York. 

Na semana passada o WFP anunciou apoio a Cynthia, recusando-se a ser de novo assediado pelo governador. É um grande início. Todas as organizações progressistas de Nova York deveriam apoiar o WFP – dos defensores de uma justiça criminal mais igualitária aos sindicatos trabalhistas. Cynthia está em desvantagem ante os US$ 30 milhões de fundos de campanha de Cuomo, mas está ganhando nas pesquisas. 

E ela é apenas um dos nomes numa grande lista que inclui o candidato a vice, Jumaane Williams, vereador do Brooklyn que tem forte apoio comunitário e uma experiência de governo que falta a Cynthia. Por todo o Estado, candidatos da nova esquerda estão se posicionando contra o estilo centralizador de Cuomo. Esse é o tipo de coalizão de que a classe trabalhadora precisa para ganhar mais poder. Essa coalizão existe e pode trazer o governo estadual para a esquerda e mostrar ao restante do país como se ganha uma eleição. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É EDITORA DO SEMANÁRIO 'THE NATION'

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