AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Artigo: Dançando com os racistas

Um presidente populista e nativista seria impraticável sem apoio dos mais radicais defensores da ‘América branca’

Jennifer Rubin, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2017 | 05h00

Depois de dois dias sendo criticado duramente pelo próprio partido, Donald Trump se arrastou ao pódio para fazer um pronunciamento condenando os supremacistas brancos, neonazistas e outros racistas. Ele começou seu pronunciamento se congratulando com o avanço da economia – porque, na verdade, ele só se preocupa com suas realizações. 

O pronunciamento foi lido de um teleprompter. Falar de improviso seria impossível, diante de sua nítida falta de entusiasmo e a cegueira obstinada dos últimos dias. Não fez menção à “direita alternativa”, nem afirmou que está demitindo Stephen Bannon, que alardeou no passado ter dado à direita alternativa uma plataforma em seu site Breitbart. E não anunciou nenhuma medida política específica. Também não se desculpou por sua rudeza moral. Esse foi o pronunciamento mais débil que conseguiu fazer, 48 horas depois.

Os nacionalistas brancos em Charlottesville não ocultaram suas intenções. Estavam lá para comemorar a presidência Trump, que explicitamente disse a eles que estava na hora de “retomar o seu país”. Ex-líder da Ku Klux Klan, David Duke não deixou nenhuma dúvida quanto à admiração de seus seguidores pelo presidente. 

Enquanto qualquer presidente ou político normal rejeitaria o apoio de neonazistas e nacionalistas brancos, Trump não os criticou imediatamente e não rejeitou o apoio. Não ter rechaçado imediatamente o apoio dos neonazistas é algo que choca e coloca o presidente na categoria do político americano que aceita com muito gosto o apoio de nacionalistas brancos, de neonazistas e da direita alternativa (formada por nacionalistas brancos com pretensões intelectuais).

Podemos concluir dessa relutância do presidente e sua obsessão por atiçar tensões raciais que, apesar de seus protestos contra os apologistas, sua mensagem de campanha teve por mira o ressentimento branco. E ele continua a afirmar a aqueles que querem “retomar o seu país”, que o “seu” país está infestado de estrangeiros, não cristãos e não brancos. A maioria de seus seguidores tinha um conceito não racista, mais benigno (retomar o país dos liberais, das elites, dos que vivem nos centros urbanos, etc.), mas foi afetada negativamente, o que fez Duke e pessoas da sua índole ressurgirem das sombras.

A constante demonização das cidades por Trump, qualificando-as como redutos de imigrantes ilegais, crimes e da deterioração, jamais teve em mira um público minoritário. Era um retrato feito especialmente para os piores estereótipos étnicos e racistas dos brancos da zona rural, deixados para trás na economia pós-industrial.

A dança de Trump com os racistas é inseparável de sua plataforma de governo. Um presidente populista e nativista sem o apoio dos mais radicais defensores de uma América branca e cristã seria impraticável.

Egolatria. Há outra explicação mais prosaica para o pronunciamento tardio do presidente e a sua recusa, mesmo agora, em rejeitar o apoio dos nacionalistas brancos – do mesmo modo que se recusa a criticar Vladimir Putin. É um comportamento narcisista clássico. O único fato que determina o apreço de Trump por alguém (realeza saudita, líderes agressivos, etc.) é se for elogiado. Tudo tem sempre a ver com sua figura. 

O presidente se mostra muito mais hostil em relação ao líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, seu próprio secretário de Justiça, Jeff Sessions, ou mesmo Ken Frazier, da Merck, que se demitiu do conselho americano de manufatura, do que no caso dos supremacistas brancos, pois os primeiros foram desleais, a seu modo de ver, e esse é o único pecado que não tem perdão na Casa Branca de hoje.

Em resumo, a ideologia e a plataforma política de Trump necessitam, no mínimo, de paz (quando não uma aliança aberta) com os nacionalistas brancos. Somente quando sua autoridade presidencial estiver em risco ele concordará em ouvir as palavras de alguém mais.

Mas lembremos que ele também é facilmente enganado por aqueles que, sinceramente ou com o fim de manipulação, o exortam e cujo apoio aterroriza seus oponentes. Não surpreende o desejo de Putin de que ele vencesse a eleição – Trump é uma presa fácil para quem pretende aniquilar a tradição democrática liberal do Ocidente.

Pensando a respeito, ele agora condenou até a KKK, mas jamais criticou abertamente Vladimir Putin. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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