AFP PHOTO / UK PARLIAMENT / JESSICA TAYLOR
AFP PHOTO / UK PARLIAMENT / JESSICA TAYLOR

Artigo: Democratas e republicanos em papéis invertidos

O impeachment de Trump é uma grande notícia, mas abafou resultados das eleições britânicas, que podem servir de lição para a campanha presidencial americana de 2020

Fareed Zakaria*, The Washington Post

21 de dezembro de 2019 | 07h00

O impeachment é uma grande notícia, mas a batalha em torno dele abafou outro acontecimento momentoso, com lições importantes para a campanha de 2020: as sísmicas eleições britânicas da semana passada. A maneira mais simples de entender os resultados no Reino Unido é analisar um fato: mesmo que os conservadores tenham recebido sua mais importante votação no Parlamento desde 1987, a opção pelo partido subiu apenas cerca de um ponto porcentual em relação a dois anos atrás, quando Theresa May foi sua líder. Nas eleições de 2017, os conservadores receberam 42,4% dos votos. Neste ano, eles alcançaram 43,6%.

O Partido Trabalhista, no entanto, passou de 40%, em 2017, para 32%, um colapso de proporções históricas. Os trabalhistas acabaram com o menor número de assentos em 84 anos. Seu famoso “muro vermelho”, que englobava áreas da classe trabalhadora no norte, desmoronou, com cadeiras que eram do partido por mais de 50 anos passando para os conservadores. Sedgefield, antigo distrito de Tony Blair, votava no Partido Trabalhista desde 1935. Agora, votou nos conservadores.

Há várias razões pelas quais os trabalhistas entraram em colapso. O partido foi liderado por Jeremy Corbyn, que é austero, pouco carismático, radical e foi perseguido por acusações de antissemitismo. Seu oponente, Boris Johnson, é vivaz e animado, foi um prefeito popular de Londres, cidade que geralmente dá seu apoio ao trabalhismo. Mas a vitória de Johnson foi cimentada por mais do que personalidade. Teve a ver com duas decisões estratégicas arriscadas, mas acabaram compensando. Será importante mantermos ambas em mente ao olhar para os EUA.

Johnson esclareceu e simplificou a eleição, tornando-a um referendo sobre o Brexit. Ele expurgou seu partido de moderados sobre esse assunto e disse ao público: “Vote nos conservadores para concluir o Brexit”. Compare isso com o outro lado. Os trabalhistas eram anti-Brexit, mais ou menos, com um líder (Corbyn) que havia sido pró-Brexit, mais ou menos, por toda a sua vida política.

A posição trabalhista sobre o Brexit era confusa. Os liberal-democratas eram resolutamente anti-Brexit, mas são um partido menor. Então, o público ficou confuso quanto à possibilidade de desperdiçar um voto a favor deles. Na política, uma mensagem simples e clara sempre supera uma mensagem complexa e sombria. Lembra-se de “construir o muro” de Trump?

A segunda decisão estratégica de Johnson foi mudar as posições do Partido Conservador sobre política econômica. Sob David Cameron e May, os conservadores eram o partido de um governo limitado, cortando gastos por meio de um conjunto de medidas de austeridade. Johnson descartou tudo isso, prometendo aumentar os gastos do governo em tudo, desde o Serviço Nacional de Saúde, a escolas e buracos nas ruas. Ele reescreveu as regras fiscais de seu partido para poder emprestar e gastar mais £ 100 bilhões adicionais.

Essa segunda aposta funcionou espetacularmente. Os conservadores conquistaram grandes parcelas da classe trabalhadora, eleitores que poderiam compartilhar o ceticismo sobre a Europa, mas que jamais votariam em um partido cuja mensagem econômica era a favor do livre mercado. Johnson fala em criar o “Conservadorismo de Uma Nação”, evocando conscientemente o lendário líder conservador Benjamin Disraeli. Ainda não se sabe se ele pode sustentar essa coalizão, mas é impressionante que Johnson tenha conseguido muitos eleitores da classe trabalhadora sem perder a base tradicional do partido, a classe média alta.

Em 2016, Trump fez campanha semelhante como populista econômico, adotando posições de esquerda em comércio, previdência social e seguro de saúde para idosos (Medicare). Ele foi capaz de obter votos da classe trabalhadora nos Estados democratas, ao mesmo tempo mantendo os eleitores tradicionais com ele. O Partido Republicano de Trump é agora uma coalizão de tipos de livre mercado e populistas da classe trabalhadora. Há uma certa tensão entre os dois grupos, mas a polarização e a lealdade partidária são tão grandes que parece haver pouco perigo de que os republicanos tradicionais abandonem Trump por um democrata.

Os democratas têm uma base maior que o Partido Trabalhista britânico. Mas, em razão da geografia americana e do colégio eleitoral, eles enfrentam a mesma vulnerabilidade, perdendo eleitores socialmente conservadores e da classe trabalhadora em vários Estados cruciais. E eles estão fazendo pouco para resolver essa vulnerabilidade.

Os democratas continuam debatendo questões econômicas, oscilando cada vez mais para a esquerda, mas o público já apoia as posições existentes do partido sobre essas questões (permitir que as pessoas aceitem o Medicare, investimentos em infraestrutura, impostos sobre os mais os ricos, aumento do salário mínimo). 

O calcanhar de Aquiles do partido é a imigração. Metade dos candidatos democratas defende descriminalizar as travessias ilegais de fronteira e a assistência médica gratuita a imigrantes sem documentos. A grandes maioria do país discorda dessas políticas, e pode-se esperar que Trump transforme isso em uma questão de força durante a campanha.

A ironia, portanto, é que o Partido Republicano, como os conservadores, se tornou ideologicamente uma grande coalizão política, enquanto os democratas – historicamente definidos como uma grande coalizão – limitaram-se ideologicamente quanto às questões que podem definir a eleição de 2020. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É colunista

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.