Washington Post photo by Jabin Botsford
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ARTIGO: Donald Trump e a arte da enrolação

O verdadeiro talento do presidente americano é fazer marketing do fracasso como se fosse sucesso

FAREED ZAKARIA, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 05h00

A crítica recorrente de Donald Trump ao seu antecessor é que ele simplesmente não sabia fechar um acordo. “Obama não é um negociador natural”, ele tuitou em 2016, reclamando da falta de um acordo sobre a Síria. “Obama atacará o Irã por causa de sua falta de capacidade de negociar de forma adequada”, ele previu erroneamente em 2013.

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Trump criticou a falta de sucesso legislativo do presidente Barack Obama, declarando-o “incapaz de negociar com o Congresso”. “Precisamos de líderes que possam negociar grandes acordos para os americanos”, tuitou Trump em 2015, e a insinuação era óbvia - ele é que era o melhor dos negociadores.

Já se passaram quase 500 dias da administração Trump. Onde estão os acordos? Onde estão o Nafta renegociado, os acordos comerciais bilaterais que vão substituir a Parceria Trans-Pacífico, o novo e aperfeiçoado pacto nuclear com o Irã, o acordo comercial da China? O histórico de Trump no Congresso é ainda menos impressionante. Ele não foi capaz de fechar acordo com os democratas sobre nada, desde a imigração até a infraestrutura. O mundo está rindo de nós, como ele diria.

Bem, o que o mundo deve estar pensando agora, enquanto observa a administração Trump adernando descontroladamente em tudo, desde a Coréia do Norte até a China? O que deve ter pensado ao observar o mestre negociador em uma sessão televisionada com líderes do Congresso sobre imigração, onde ele parecia concordar com a posição democrata, então concordar com a (incompatível) posição republicana, o tempo todo garantindo que fariam um acordo? Não o fizeram.

A essa altura, é óbvio que Trump é na verdade um mau negociador, um homem impulsivo, emocional, que ignora as instruções, raramente sabe detalhes e atira primeiro e faz perguntas depois.

Vamos levar em conta como o governo conduziu a cúpula com a Coreia do Norte. Primeiro, a reunião foi anunciada com grande alarde, com Trump logo elogiando Kim Jong-un. Concordar com o encontro foi uma enorme concessão simbólica aos norte-coreanos, sem receber quase nada em troca. Esta seria uma cúpula de chefes de estado, embora houvesse pouca preparação e nenhuma decisão de que os dois lados estivessem próximos o suficiente para ter uma negociação séria nesse nível.

Trump ficou tão entusiasmado que começou a anunciar as perspectivas de um acordo inovador, apesar de poucas evidências de qualquer movimento na posição norte-coreana. Em seguida, os conselheiros de Trump embarcaram em uma estranha série de comentários que pareciam destinados a ameaçar, assustar e intimidar a Coréia do Norte.

Era esse o plano? A administração se arrependeu de suas aberturas iniciais? Ou tratava-se apenas de incompetência? Alguém ficou admirado que tudo tenha desmoronado?

Trump tem sido ainda mais desastrado em seus negócios com a China. Pouco antes de entrar na Casa Branca, ele ofereceu a possibilidade de reconhecer Taiwan. Pequim rapidamente encerrou o contato com os Estados Unidos e, de forma humilhante, Trump teve que voltar atrás em seus comentários, num telefonema ao presidente Xi Jinping.

As atuais negociações comerciais com a China são um estudo de caso sobre más negociações. É difícil saber por onde começar. O governo dos EUA parece não saber o que quer. Há dias em que Washington parece estar obcecado com o tamanho do déficit comercial. Em outros dias, se concentra na transferência de tecnologia e em roubo de propriedade intelectual.

A Casa Branca começou seus ataques impondo tarifas sobre o aço, o que afetou principalmente os aliados dos americanos, o que garantiu que se vissem sem parceiros em sua tentativa de pressionar os chineses. Depois de insistir que nenhum país ficaria isento, a administração mudou mais uma vez o curso e distribuiu isenções aos cinco principais exportadores de aço para os EUA, apesar de ameaçar reverter a decisão novamente.

Negociadores americanos vazaram furiosamente informações para a imprensa com a meta de minar as posições uns dos outros e até brigaram entre si diante de uma delegação chinesa no início deste mês. O próprio Trump parece trocar de marcha repetidamente.

Depois que seu governo anunciou que puniria a ZTE, uma enorme empresa chinesa de tecnologia que cometeu sérias violações ao comércio, Trump de repente mudou de ideia, alegando preocupação com o impacto nos empregos chineses. Imagine-se o clamor se Obama tivesse recuado da pressão sobre os chineses para ajudar a economia deles!

Na frente legislativa, Trump escolheu começar sua presidência com a discutível questão da assistência à saúde em vez de uma infraestrutura unificadora - e fracassou ao tentar revogar o Obamacare de qualquer maneira. Ah, e não nos esqueçamos, ele e o genro Jared Kushner iam negociar o acordo definitivo, a paz entre israelenses e palestinos. Como vai isso?

Enquanto as negociações fracassam, os acordos desabam e negociações naufragam, Trump continua a tuitar triunfalmente sobre seu grande sucesso. Isso nos leva a perceber qual o verdadeiro talento do presidente. Ele tem a confiança, bravata e habilidade para o marketing do fracasso como se fosse sucesso. Ele pode pegar um prédio medíocre, colocar um pouco de tinta dourada e depois convencer as pessoas de que é um condomínio de luxo. Chame de a Arte da Enrolação. / Tradução de Claudia Bozzo

 

 

 

"Todo mundo joga jogos", disse o presidente nesta sexta-feira, na Casa Branca. "Eles querem muito fazer [a reunião], e nós gostaríamos de fazer", afirmou. Mais cedo, ele havia ressaltado que a reação da Coreia do Norte à sua carta fora "produtiva". O tom de ambos os lados foi menos hostil nesta sexta. A coreia do Norte divulgou uma declaração dizendo que ainda estava "disposta a dar tempo e oportunidade aos EUA" e pediu que o país reconsiderasse as conversações.

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O vice-ministro de Relações Exteriores norte-coreano, Kim Kye-gwan, chamou a retirada dos EUA da cúpula de "inesperada" e "muito lamentável". Ele acrescentou que a situação mostrou "o quão grave é o status de hostilidades profundamente históricas entre Coreia do Norte e EUA e o quão urgente uma cúpula deve ser realizada para melhorar os laços".

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Trump reagiu positivamente à declaração do vice-ministro, dizendo que era uma "notícia boa". "Veremos em breve onde ela [a declaração] nos levará", afirmou, ressaltando que espera um caminho de prosperidade e paz duradouras. / AP

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