(AP Photo/Jacquelyn Martin)
(AP Photo/Jacquelyn Martin)

ARTIGO: Donald Trump pode ter razão sobre imigração legal

Reprimir a imigração ilegal e ao mesmo tempo fazer uma reforma e aumentar de fato a imigração legal é uma medida política inteligente

Fareed Zakaria, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2019 | 05h00

A ameaça do presidente Donald Trump de fechar a fronteira com o México confundiu até seus aliados. O senador John Cornyn, republicano do Texas, afirmou que “isso será ruim para todos”. E o senador John Tune, de Dakota do Sul, observou: “Não sei se é uma boa ideia e se terá o resultado desejado”. A ameaça faz parte do estilo habitual de Trump – bravatas e blefes – para no final se retratar.

Mas, com relação à imigração legal, Trump parece estar mudando sua posição. Em seu discurso de 2019 sobre o Estado da Nação ele declarou: “Desejo que as pessoas venham ao nosso país em número cada vez maior, mas elas têm de entrar legalmente”. Pessoas com uma visão radical do assunto não receberam bem a declaração.

Um dia depois de seu discurso ele disse aos jornalistas que: “é preciso que as pessoas venham porque necessitamos delas para movimentar as fábricas e empresas que estão voltando a se instalar aqui”. Jared Kushner discretamente vem desenvolvendo uma proposta para aumentar a vinda de imigrantes legais para os Estados Unidos.

Se esta é a nova posição do presidente no caso da imigração, ele deveria se encaminhar no sentido de um compromisso mais robusto – reprimir realmente a imigração ilegal e, paralelamente, fazer uma reforma e aumentar de fato a imigração legal. Esta é também uma medida política inteligente.

Um novo ensaio publicado na revista International Security sublinha que em 2050 os EUA serão a única grande potência mundial a registrar um aumento de população. Os quatro autores do ensaio, todos professores universitários, relacionam esse fator ao crescimento econômico mais dinâmico e também à capacidade e disposição dos EUA de assumirem um papel político e militar mais importante.

Os dados sobre outras grandes potências são surpreendentes. Projeções das Nações Unidas mostram que em 2050 China e Rússia terão uma queda de 20% no número de pessoas com capacidade produtiva. A população em idade ativa na Alemanha deverá cair 17%, e no Japão 29%. Isso acarretará um crescimento mais lento, menor vitalidade econômica e uma maior apatia no plano mundial.

No caso dos EUA, no mesmo período, o número de indivíduos em idade ativa deve subir 12%. E somente outros três países desenvolvidos registrarão um aumento nessa área: Austrália, Canadá e Reino Unido. Mas os quatro países desfrutarão desse impulso apenas por causa da imigração. Sem ela, em 2050, nos EUA a população em idade ativa encolheria 4,5%.

Em meio a todo o espalhafato nos EUA em torno da imigração, é fácil esquecer o panorama geral. Imigração significa uma economia mais robusta. Normalmente tem a ver com trabalhadores mais novatos, o que se traduz num maior dinamismo e mais inovação.

Muitos prêmios Nobel são outorgados a cientistas pelo trabalho que produziram quando jovens. Muitas companhias foram fundadas por jovens. Populações mais jovens são mais propensas a assumir riscos, são mais ousadas e empreendedoras.

A imigração legal nos EUA, na verdade, não é tão alta. Antes de presidir o Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca, Kevin Hassett publicou um artigo na National Review em que classificou os países ricos com base na proporção de seus novos imigrantes em relação à população total, em 2010. Os EUA ocuparam o terceiro pior lugar desse ranking, melhor apenas do que Japão e França.

Países como Canadá e Alemanha tinham duas vezes mais novos imigrantes em relação ao total de sua população, e Noruega e Suíça quatro vezes mais.

Nas duas últimas décadas muitas das vantagens competitivas cruciais dos EUA foram copiadas pelo mundo a ponto de outras nações se aperfeiçoarem – economias de mercado bem reguladas, investimentos em tecnologia, infraestrutura e educação em massa. O que os EUA deixaram de fazer para realmente se distinguirem?

Nos últimos 50 anos, o país administrou a imigração melhor do que a maioria dos outros países. Recebeu pessoas de todos os lugares, elas foram assimiladas e integradas no tecido da sociedade, e os novos imigrantes sentiam-se tão motivados quanto os velhos. Esta será a vantagem competitiva crucial dos EUA neste século. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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